- Jornalismo
- 20 de janeiro de 2026
Projeto da UEL visa criar alimentos funcionais para combater desperdício
Estudo transforma grãos envelhecidos ou defeituosos em alimentos como farinhas de elevado potencial nutricional.

Recentemente, relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estimou que 673 milhões de pessoas tenham passado fome em 2024. Estudo feito pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontou que em 2020 o Brasil sofreu uma perda econômica com o desperdício de grãos na casa dos 80 bilhões de reais e, para este ano, segundo a Câmara Setorial de Armazenagem de Grãos da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), por volta de 120 milhões de toneladas de grãos não terão locais para serem armazenadas, ficando sujeitas, portanto, a perdas de qualidade para a comercialização.
O desperdício de alimentos é um problema indigesto, para o qual um estudo da Universidade Estadual de Londrina (UEL), coordenado pela professora do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos, Thais de Souza Rocha, propõe soluções sustentáveis.

O problema do desperdício de alimentos no país não é novidade, e as causas perpassam várias frentes da cadeia produtiva, como armazenamento e infraestrutura de transporte insuficientes e inadequados. Soluções, porém, são raras. O projeto “Valorização e Aproveitamento de Grãos Defeituosos ou Envelhecidos: Fontes de Peptídeos Bioativos e Ingredientes Inovadores para Alimentos Funcionais”, conduzido pela professora Thais Rocha, apresenta uma ideia prática: não só aproveitar o que seria jogado fora, mas também agregar a esse produto descartável benefícios para a saúde.
Os grãos envelhecidos ou defeituosos a serem usados no projeto virão das culturas de soja, feijão, amendoim e grão-de-bico. A escolha desses grãos para o estudo não foi aleatória. Todos eles possuem um elevado percentual de proteínas. Além disso, as produções paranaenses de feijão e de soja são robustas, pois o estado é o maior produtor de feijão do Brasil e, na soja, possui a segunda maior produção.
O projeto pretende transformar grãos envelhecidos ou defeituosos em alimentos, notadamente farinhas, de elevado potencial nutricional e que sejam funcionais, ou seja, possuem substâncias que, não sendo essenciais para o corpo humano, trazem benefícios para a saúde, tais como ação antimicrobiana, antioxidante, antidiabética e anti-hipertensiva. A professora Thaís Rocha salienta que, embora envelhecidos e defeituosos, os grãos não perdem o valor nutricional, tanto é que podem ser usados para ração animal. Entretanto, poderiam ser destinados aos seres humanos. “Os grãos envelhecidos ou defeituosos são usados para ração animal, mas, hoje em dia, quando a gente pensa em alimento escasso no mundo, não podemos alimentar animal, se as pessoas estão com fome. Vamos trazer isso para alimentação das pessoas. Para dar conta desse desperdício, vem a ideia das farinhas”, explica.
A farinha será configurada de modo a permitir que nela estejam disponibilizados peptídeos bioativos para a absorção pelo organismo. Partículas pertencentes à estrutura de uma proteína, os peptídeos bioativos podem atuar em várias frentes no corpo humano, como na regulação digestiva, no combate a inflamações e no sistema imunológico. “O foco é a proteína, mais especificamente no peptídeo que está contido nessa proteína. É o benefício à saúde que vem dos peptídeos bioativos contidos nessas proteínas”, complementa Thaís Rocha.
Saúde após a digestão
O desafio das pesquisas que estudam os peptídeos bioativos em alimentos funcionais é que não há uma certeza de que, após a digestão, o peptídeo estará íntegro para ser absorvido pelo organismo. Isso porque, como os peptídeos bioativos são parte da estrutura da cadeia molecular de uma proteína, quando essa proteína é digerida no trato intestinal, o peptídeo também pode ser quebrado junto com ela, fazendo com que seus benefícios à saúde se percam. “Cada pessoa tem o seu mecanismo de digestão, mas e se ele não digerir? Nós vamos produzir a farinha, o produto, de forma que a proteína esteja preparada para que, no processo de digestão, haja a liberação. Ela já vai estar pré-hidrolisada para isso, facilitando a digestão. Vamos verificar se o peptídeo ficou disponível para a absorção”, explica a coordenadora do projeto.
Ainda segundo Thaís Rocha, não se trata de enriquecer uma farinha, mas sim de facilitar o acesso do organismo ao peptídeo. “Queremos saber se conseguimos produzir isso nesses alimentos. Se conseguimos libertar esse peptídeo da cadeia da proteína, deixá-lo livre para, quando for consumido, esteja apto a produzir a ação biológica dele”, complementa a professora. Portanto, o projeto não se propõe apenas a tornar o que seria desperdiçado aproveitável, mas dar a ele qualidades que o produto original — os grãos — não tinha, pelo menos de forma mais acessível ao organismo humano.
No estudo, os peptídeos serão disponibilizados por dois processos: germinação controlada e fermentação. Na germinação controlada, quando o grão de feijão começa a brotar, inicia-se todo um processo de metabolismo que produz várias enzimas que são capazes de quebrar proteínas para gerar uma nova planta. Essas mesmas enzimas podem liberar os peptídeos bioativos durante a quebra das proteínas. “Então, vamos analisar quais são as enzimas que estão ativas ali, como é o sinergismo entre elas, como estarão ativas, qual é o máximo de ação que conseguimos delas para produzir os peptídeos”, explica Thaís Rocha. A professora ainda salienta que, por conta dos grãos estarem envelhecidos, poderá haver uma dificuldade de fazê-los germinar. Entretanto, caso a germinação não dê certo, pode-se usar a fermentação, que, assim com a germinação, também produz enzimas que podem fazer a quebra de proteínas.
O projeto está em sintonia com o item “Consumo e Produção Responsáveis” do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas (ONU). O estudo foi contemplado no Programa Bolsas de Produtividade em Pesquisa pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e terá bolsistas de iniciação científica, de Mestrado e de Doutorado.
Redação Tem Londrina com UEL