A construção de pontes

“Construindo pontes”, filme de Heloísa Passos, foi exibido durante o Festival Kinoarte, no Teatro Ouro Verde, em Londrina, no dia 14 de novembro, com a presença da cineasta, que bateu um papo com o público após a sessão.

Na tela, força e delicadeza se alternam, se fundem e reviram nossas memórias. Heloísa resolveu fazer o projeto depois de receber uma caixa de filmes super 8 com imagens das Sete Quedas, na fronteira do Brasil com o Paraguai e que foram inundadas para a construção de Itaipu, a maior usina hidrelétrica do mundo. Heloísa conta que os indígenas chamam o Lago de Itaipu de “Deserto de Água”. E foi este o primeiro nome que pensou para o filme que começava então em 2010.

Mas, sua história não vai se ater a registrar o projeto gigantesco levado adiante pelo governo militar. Corajosa, decide convocar o pai, um engenheiro (hoje com 80 anos) que teve seu auge profissional no período da ditadura com a construção de pontes e estradas, a serviço da CR Almeida, em várias regiões do Estado e do país. E a história então se desenvolve. Agora, com a presença de Álvaro, o pai, e de Heloísa, a filha. Vemos a beleza das Sete Quedas, a força das águas, a violência das explosões que mudam o curso do Rio Paraná para a formação do Lago de Itaipu. Vemos a imponência da usina, com dimensões faraônicas.

O relacionamento entre os dois, captado por duas câmeras instaladas na casa dos pais em Curitiba, também tem turbilhões emocionais. Os slides mostram que Heloísa teve uma infância feliz, de “menina rica”, como ela diz, alheia ao que acontece no país da repressão militar. No filme, Álvaro defende que o período da “revolução” foi o único da história em que houve um projeto de construção de país.

Foto: “Construindo pontes”, de Heloísa Passos

A tensão entre pai e filha começa cedo. Com 22 anos de idade, ao ser flagrada por Álvaro num relacionamento com outra mulher, Heloísa decide se mudar pra São Paulo. “Meu pai não sabia o que fazer comigo e eu não sabia o que fazer com ele”.

Agora, vemos que o gesto que Heloísa faz em direção ao pai, ao procurá-lo para o filme, é retribuído por ele. Ambos estão dispostos a estabelecer essa ponte. Mas é uma relação dolorosa, que toca em pontos sensíveis. Os encontros ocorrem no momento em que o país discute o impeachment de Dilma. Álvaro defende suas posições com muita calma. Ele é convicto de que está sempre certo. Em contrapartida, Heloísa altera a voz e se exalta para expressar o que pensa. O pai chega a aconselhar: você não pode se envolver emocionalmente desta forma. Como se fosse possível. E isso me faz lembrar do meu pai dizendo: Carina, você precisa respirar e contar até 10 antes de falar. No debate, perguntam a Heloísa justamente sobre esse aparente desequilíbrio dela diante do pai. “O opressor nunca se altera” – responde.

Foto: Internet

Apesar de parecer que há um abismo entre pai e filha, eles vão adiante e constroem uma ponte. Caminham em direção ao outro e, juntos, contam uma história, a história possível. E há muita beleza nesse esforço. Uma beleza que nos afeta e emociona.

* Construindo Pontes recebeu, no Festival de Brasília, o Prêmio Marco Antônio Guimarães, conferido pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro para o filme que melhor utilizar material de pesquisa cinematográfica brasileira

Carina Paccola

Tenho 51 anos, sou jornalista, com mestrado em ciências sociais. Recentemente, me formei também em artes visuais. Faço mosaico e comecei a pintar. Sou mãe de um rapaz de 22 anos.


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