Declaração de amor a um grande amigo

Mal entrou e 2018 já me traz despedidas… Neste janeiro em que se completam 34 anos da nossa entrada no curso de Jornalismo da UEL, o Rogério Fischer anuncia sua mudança para Ribeirão Preto, perto da Guará, que até 1984 nunca havia ouvido falar… E Guará desde então passou a fazer parte da minha vida, embora eu nunca tenha pisado lá. Mas nessas três décadas ouvi tantas histórias vindas desse lugar, que se alguém perguntar eu respondo que conheço, sim. Afinal, conheço pelos olhos do Rogê. Nesse período, tanto eu como o Rogério já nos despedimos de Londrina algumas vezes – eu mais vezes do que ele. Não sei se é porque a gente tá ficando velho mas parece que agora dói.

Talvez doa porque a dona Maura se foi pra sempre, e eu sei como é a dor de quando a mãe da gente se vai.

Talvez o Rogério tenha sido mais irmão pra mim do que eu fora irmã para ele.

Eu filei boia em todas as casas onde ele morou por aqui. E acredito que o convidei para minha casa pouquíssimas vezes. E de verdade acho que em nenhuma vez eu o recebi com algum rango que tenha sido legal. Por isso, na noite da sua despedida no boteco quando a Regina perguntou se eu sabia cozinhar, o Rogério me olhou com aquele olhar de “veja bem o que você vai responder”.

Em agosto de 2014, reencontro da turma de 1984: Aurélio, Dirceu, Loyola, Denise Sacco, Carina; na linha de baixo, Luís, Graça, Carla, Denise Gentil, Edra, Silvana e Rogério

Os primeiros almoços filados foram na república da Rua Paraíba, palco de memoráveis festas da Comunicação. Eu adorava ficar lá ouvindo as histórias daqueles meninos que, esparramados em volta da tevê, brigavam para ver quem ia trocar o canal, numa época em que não havia controle remoto. Talvez aquele ambiente me lembrasse a minha casa, com tantos irmãos.

No período em que ele foi casado com a Cris, eu também bati ponto. E teve uma vez que fiquei na casa – agora na Rua Taubaté – para cuidar dos gatos enquanto eles viajavam. Logo eu, que morro de medo de gatos. A Natália ainda não havia nascido.

Nos últimos anos, o rega-bofe era na Casa Verde, que passou a reunir muitos e muitos amigos, em muitas festas, nas quais eu nem sempre comparecia. Mas foram incontáveis os domingos em que fui salva logo de manhã com uma mensagem no celular me convidando para o almoço. Lá seguia eu, e carregava junto o Aurélio. E era certo que eu daria muita risada com o nosso trio, original de 1984. O Rogério reclamava que nas discussões eu tomava partido do Aurélio. E eu respondia que era porque o Aurélio era menor. Assim, os dois ficavam bravos comigo… rs

Só me dei conta do quanto o Rogério é agregador nos últimos aniversários dele, nos dezembros da vida. Em 2016, o traje era verde e branco. No meio da festa, vendo Apolo, Marquinho Feio e Mário Sérgio (corintianos roxos é redundância?), pensei em como aquele palmeirense calado, vindo lá de Guará, reunia tanta gente que gostava dele. E agora, em 2017, quando o campeão era o Corinthians, os mesmos amigos ali, cantavam e trocavam as letras das músicas do Corinthians e do Santos para enaltecer o Palmeiras e agradar o aniversariante.

Em abril de 2010, reencontro: Luís, Vânia, Ariel e Rogério

Sempre estivemos próximos. Trabalhamos juntos na Folha de Londrina e eu gosto de lembrar que uma das matérias da qual tenho bastante orgulho foi editada pelo Rogério. Eu, repórter de Economia. Ele, editor de Cidades. Escalada para uma pauta de Cidades, fui a uma audiência de um juiz com associações de moradores sobre transporte coletivo, quando estava em discussão a renovação do contrato de concessão. O juiz, extremamente parcial, pró-empresa, tratava os moradores com desdém. De volta ao jornal, disse que eu gostaria de fazer um relato à parte com os detalhes da atitude do juiz. Rogério me deu carta branca, fez uma bela edição, com destaque para uma foto aberta do juiz, e fechamos a contracapa. Depois disso, o juiz acabou se declarando impedido de continuar atuando no processo de concessão.

Em 2003, quando ele se mudou para Maringá para chefiar o Diário, me chamou para fazer parte da equipe. Fui pra lá de mala e cuia, agora com o Nícolas. E enquanto procurava lugar pra morar nos hospedamos na casa do Rogério. Foram apenas 40 dias porque acabei selecionada para uma vaga em Brasília. Mas foi tempo suficiente para reforçar a confiança e o respeito mútuos.

Mas é claro que o Rogê já me deixou muito brava, por exemplo, quando chamou a minha atenção por causa dos meus posicionamentos políticos. Numa atitude de proteção, disse que não era para eu me expor daquele jeito. E fez isso publicamente. Óbvio que eu rangi os dentes e soltei faíscas pelo zóio. E devo ter mantido assim uma posição distante quando nos encontrávamos. E também é óbvio que ele ignorou completamente minha reação e não arredou pé nenhum tantinho na nossa amizade.

Quando eu penso em como a nossa profissão tem sido injusta com os jornalistas, penso nos grandes amigos que tenho, grandes profissionais e que, agora cinquentões, já não cabem mais nas redações. Tanta experiência, tanto talento, sem trabalho. Então eles partem, como se fosse uma diáspora.

E agora se vai o Rogério. Encarar uma área diferente, como se fosse um menino. Que Ribeirão Preto o receba como ele sempre acolheu os amigos.

Carina Paccola

Tenho 51 anos, sou jornalista, com mestrado em ciências sociais. Recentemente, me formei também em artes visuais. Faço mosaico e comecei a pintar. Sou mãe de um rapaz de 22 anos.


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