Meu pai e a meritocracia

Algumas memórias de infância são muito vívidas para mim. Talvez, as que de fato tenham significado algum aprendizado para a minha vida. Me lembro de, aos 8 ou 9 anos, ter tido o seguinte diálogo com meu pai:

– Pai, por que pobre é “ruim”?

– Quem disse que pobre é ruim? Tem pobre bom e pobre ruim, assim como tem rico bom e rico ruim!

– Não, pai, ruim na escola, não faz tarefa, não acerta as perguntas…

– Olhe, aqui em casa tem enciclopédia que pode te ajudar nas tarefas, tem jornal. Muitas vezes, quem é pobre não tem livro em casa, às vezes não tem nem luz elétrica. Então, para essas pessoas é mais difícil estudar. Você tem que oferecer ajuda a esses colegas porque eles não têm o que você tem.

E olhe que meu pai nunca foi de esquerda…

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Acho que eu já tinha então uns 9 ou 10 anos quando apareceu em casa uma mulher com uma criança de colo para pedir roupa e comida. O menino devia ter em torno de 1 aninho porque já estava começando a andar. Ele se chamava Roberto Carlos. Enquanto minha mãe ia preparar as coisas, eu ficava brincando com ele na área da frente de casa. Aquela mulher deve ter ido umas 2 ou 3 vezes. Então eu tive uma ideia.

À noite, pedi para meu pai adotar o Roberto Carlos. Expliquei que ele era pobre e que eu gostava de brincar com ele, que eu poderia ajudar a cuidar.

Mais uma vez, meu pai foi didático:

– Primeiro: por que você acha que a mulher doaria o filho? Não é porque ela é pobre que ela não ama o filho. Segundo: filho não é brinquedo. Não é igual sua boneca que, quando você se cansa, você guarda na caixa ou deixa no quintal. Filho não tem onde guardar, tem que cuidar o tempo todo.

Disso ele entendia, tinha 7. Acho que a mulher percebeu minhas intenções para com o Roberto Carlos porque ela nunca mais apareceu.

Meu pai – Foto: Acervo pessoal

Carina Paccola

Tenho 51 anos, sou jornalista, com mestrado em ciências sociais. Recentemente, me formei também em artes visuais. Faço mosaico e comecei a pintar. Sou mãe de um rapaz de 22 anos.


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