- Jornalismo
- 1 de agosto de 2026
Tio de Ana Paula publica carta emocionante em despedida da jovem; leia
Despedida foi publicada nas redes sociais.

O professor Marcos Silveira, tio da fotógrafa Ana Paula Silveira Cardoso, de 29 anos, publicou uma carta emocionante em homenagem à sobrinha após a morte da jovem durante uma trilha no Salto das Orquídeas, em Sapopema. No texto, ele relembra a trajetória de Ana Paula, sua paixão pela fotografia, pela natureza e pela família, além de defender que a tragédia sirva como ponto de partida para melhorias na segurança do ecoturismo.
Na carta (leia abaixo na íntegra), Marcos destaca que Ana Paula morreu fazendo o que mais amava: explorando a natureza e registrando paisagens por meio da fotografia. Segundo ele, a sobrinha era uma pessoa sensível, generosa e muito querida por todos ao seu redor. “A fotografia era uma extensão do seu jeito de existir: perceber aquilo que muitas vezes passa despercebido aos olhos dos outros.”

“A sua história jamais poderá ser resumida à forma como você partiu. Ana Paula é infinitamente maior do que o acidente que te levou. Por isso quero lembrar de onde você viveu, e não apenas de onde você morreu. Você era boa, Ana. Boa de um jeito que às vezes parece difícil de conciliar com este mundo tão caótico, tão apressado e tantas vezes tão duro. Na minha fé, encontro algum consolo imaginando que papai do céu tenha olhado para você com o mesmo carinho com que você olhava para o mundo e a tenha tomado para si”, escreveu o tio.
“Mas dói. Dói porque queríamos você aqui. Queríamos mais tempo. Mais aniversários. Mais viagens. Mais fotografias. Mais encontros. Mais conversas. Mais aventuras. Mais histórias para contar quando todos estivessem juntos. Mais abraços. Queríamos a possibilidade tão simples, que antes parecia garantida, de dizer: “até a próxima”. Não houve próxima. E isso é o que mais machuca. Mas houve você. E ter tido você em nossas vidas foi um presente que nenhuma tragédia poderá apagar. Pessoas muito amadas não desaparecem de repente. Continuam presentes nas histórias que contamos, nos lugares que nos fazem lembrar delas, nas fotografias, nos gestos que aprendemos com elas e até nas pequenas coisas do cotidiano que, inesperadamente, fazem a memória voltar”, diz Marcos, na carta.

Ele também lembra que Ana Paula era socióloga, apaixonada por conhecer pessoas e lugares, e que carregava o espírito aventureiro presente na família. Ele faz questão de diferenciar esse perfil da imprudência. “Aventura nunca significou falta de cuidado. Significava curiosidade, liberdade, descoberta e alegria de viver.”
“Agora Ana, você está conhecendo outras paisagens. No lugar onde as almas boas se encontram lá está você, com sua câmera, olhando tudo com aquela curiosidade de sempre e descobrindo beleza antes de todo mundo. Nós ficamos aqui, neguinha, com uma saudade enorme, com muitas perguntas, com suas fotografias, com nossas histórias, com as aventuras que você viveu e, sobretudo, com o privilégio de termos amado você. Descanse em paz meu amor. Você foi muito amada, você é muito amada e continuará conosco, de outras maneiras, para sempre”.
Símbolo de mudanças
Um dos trechos mais marcantes da homenagem é o pedido para que a morte da fotógrafa represente uma mudança na segurança das trilhas e atrativos naturais. “Ana, você ainda tem uma missão por aqui. O seu nome precisa ser o símbolo de um movimento pela melhoria das condições de segurança no ecoturismo.”
Marcos Silveira defende a instalação de sinalizações, revisão dos protocolos de segurança e maior atenção dos responsáveis por áreas de ecoturismo. Para ele, se a morte da sobrinha contribuir para salvar outras vidas, parte do legado de Ana Paula permanecerá.
Ao encerrar a homenagem, o professor universitário afirma que a história da fotógrafa jamais poderá ser resumida pela forma como ela morreu. “Que o Salto das Orquídeas não seja lembrado apenas como o lugar onde você se foi, mas também como o lugar onde alguma coisa começou a mudar.”
A carta emocionou familiares, amigos e internautas e passou a circular nas redes sociais como uma homenagem à fotógrafa londrinense, além de um apelo por mais segurança em trilhas e atrativos naturais.
Ana Paula foi sepultada nesta sexta-feira, em uma cerimônia reservada para familiares e amigos próximos.
📃 Leia a carta na íntegra:
Ana Paula,
É difícil encontrar palavras quando a dor é grande demais para caber nelas, quando o vazio deixado é impossível de explicar. Você se foi fazendo aquilo que tanto gostava: caminhando, observando, descobrindo e fotografando num templo sem paredes, construído pela água, pelas árvores, pelas pedras, pela luz, pelas orquídeas e pelo silêncio. A fotografia era uma extensão do seu jeito de existir: perceber aquilo que muitas vezes passa despercebido aos olhos dos outros.
Como socióloga você queria compreender as pessoas, mas também sabia observá-las com carinho, atenção, generosidade, e por isso é tão querida e profundamente amada a ponto da sua partida prematura causar tamanha comoção. Chama a atenção a delicadeza especial no seu jeito de tratar quem estava ao seu redor. Querida porque sabia querer bem. Amada porque espalhava amor e graça sem precisar fazer esforço para isso. Em você havia simplicidade no melhor sentido da palavra: você não precisava ocupar o centro para ser importante
A família era parte essencial de quem você era. E justamente por ser tão família, também carregava uma característica que reconhecemos tão bem entre nós: a aventura na veia. Esse gosto por sair, conhecer, descobrir, pegar a estrada, encontrar novos lugares, entrar em contato com a natureza e colecionar histórias. Uma inquietude boa diante do mundo. A vontade de saber o que existe depois da curva, no fim da trilha, do outro lado da paisagem. Você tinha isso em você. Nós temos isso na família. E aventura nunca significou falta de cuidado. Significava curiosidade, liberdade, descoberta, alegria de viver.
Agora ficam as fotografias que você fez e muitas outras que câmera alguma registrou: sua voz, seu jeito de chegar, as conversas, os encontros, os abraços, os pequenos gestos de carinho. Imagens que não estão impressas em papel nem guardadas em arquivos, porque estão guardadas em nós e que o tempo jamais conseguirá apagar. Conhecendo você, é muito difícil acreditar que tenha simplesmente desrespeitado os limites da segurança. Você era consciente, responsável, cuidadosa. Gostava da aventura, sim, mas aventura e imprudência são coisas muito diferentes.
Ana, você ainda tem uma missão por aqui. O seu nome precisa ser o símbolo de um movimento pela melhoria das condições de segurança no ecoturismo. A sua história deve provocar mudanças que há muito deveriam ter acontecido. Se uma placa for instalada onde hoje falta informação; se uma trilha for reavaliada; se um risco for melhor sinalizado; se protocolos forem revistos; se gestores e responsáveis passarem a olhar com mais atenção para a segurança das pessoas; se uma única vida for preservada, então haverá um pouco de você naquela mudança. Pensar que você poderá continuar cuidando de pessoas combina tanto com quem você foi.
A sua história jamais poderá ser resumida à forma como você partiu. Ana Paula é infinitamente maior do que o acidente que te levou. Por isso quero lembrar de onde você viveu, e não apenas de onde você morreu. Você era boa, Ana. Boa de um jeito que às vezes parece difícil de conciliar com este mundo tão caótico, tão apressado e tantas vezes tão duro. Na minha fé, encontro algum consolo imaginando que papai do céu tenha olhado para você com o mesmo carinho com que você olhava para o mundo e a tenha tomado para Si.
Mas dói. Dói porque queríamos você aqui. Queríamos mais tempo. Mais aniversários. Mais viagens. Mais fotografias. Mais encontros. Mais conversas. Mais aventuras. Mais histórias para contar quando todos estivessem juntos. Mais abraços. Queríamos a possibilidade tão simples, que antes parecia garantida, de dizer: “até a próxima”. Não houve próxima. E isso é o que mais machuca. Mas houve você. E ter tido você em nossas vidas foi um presente que nenhuma tragédia poderá apagar.
Pessoas muito amadas não desaparecem de repente. Continuam presentes nas histórias que contamos, nos lugares que nos fazem lembrar delas, nas fotografias, nos gestos que aprendemos com elas e até nas pequenas coisas do cotidiano que, inesperadamente, fazem a memória voltar. Um dia, talvez, consigamos falar de você sem que as lágrimas cheguem primeiro. Talvez a saudade encontre um lugar mais sereno dentro de nós. E então perceberemos que você nunca ficou apenas naquele Salto. Você está espalhada por todos os lugares onde foi feliz. Está nas fotografias que deixou. Nas pessoas que amou. Na família que era tão sua. Nas aventuras que viveu. Na natureza que admirava. Nas histórias que continuaremos contando. Na saudade que testemunha o tamanho do nosso amor. E, quem sabe, nas vidas que poderão ser protegidas por mudanças que nascerão depois de sua partida.
Que o Salto das Orquídeas não seja lembrado por nós apenas como o lugar onde você se foi, meu amor. Que seja também o lugar onde alguma coisa começou a mudar. E que, entre a água, as pedras, a floresta e as orquídeas, permaneça a memória daquela mulher sensível, carinhosa, amante da natureza e da família.
Agora Ana, você está conhecendo outras paisagens. No lugar onde as almas boas se encontram lá está você, com sua câmera, olhando tudo com aquela curiosidade de sempre e descobrindo beleza antes de todo mundo. Nós ficamos aqui, neguinha, com uma saudade enorme, com muitas perguntas, com suas fotografias, com nossas histórias, com as aventuras que você viveu e, sobretudo, com o privilégio de termos amado você. Descanse em paz meu amor. Você foi muito amada, você é muito amada e continuará conosco, de outras maneiras, para sempre.
Redação Tem Londrina