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O mato, o mito e o mico

Artigo escrito por Fábio Silveira.

Imagem: Reprodução

Mais que um evento sazonal acelerado por chuvas, calor e sol, o mato em Londrina é um agente político. E dos mais poderosos. Em quase 30 anos de jornalismo diário me deparei diversas vezes com essa pauta: moradores reclamando do mato alto em todos os cantos da cidade. As queixas crescem e se multiplicam, até que ganham contornos políticos. Num dos episódios mais dramáticos, a repórter Vita Guimarães deu o pontapé inicial para o que se tornaria o caso Ama/Comurb, no terceiro mandato de Antônio Belinati. O descompasso entre o mato que engolia a cidade e as planilhas que indicavam que o serviço de roçagem teria que ter sido feito várias vezes (e não foi), deu origem a investigações do Ministério Público que chegaram à Comurb e em meio a uma avalanche de denúncias, levaram à cassação de Belinati.

Estudei o caso Ama/Comurb em minha dissertação de mestrado. A jornalista e professora Carly Aguiar, que participou da banca resumiu: segundo ela, poderíamos dizer que “o mato derrubou o mito” – que no caso era Antônio Belinati, vencedor de quatro eleições municipais (na quarta ele teve o registro cassado pelo TSE e não assumiu).

Nas últimas três décadas vi todos os prefeitos de Londrina sendo criticados por causa do mato. Em maior ou menor grau. Mas de todos eles, ainda que passíveis de críticas, pode-se dizer que ficou algum legado. O próprio Belinati construiu o Pronto Atendimento Infantil (PAI) e trouxe algumas indústrias para a cidade; Nedson Micheleti, no começo do século, deixou o Promic e a coleta seletiva; Barbosa Neto criou a Guarda Municipal, fez o cidade limpa e faixas exclusivas para o transporte coletivo; Alexandre Kireeff implantou passe livre para estudantes e municipalizou o Programa Saúde da Família, tirando as Oscips do setor e acabando com os escândalos; Marcelo Belinati fez várias obras viárias, agilizou os processos licitatórios e reformou escolas e postos de saúde.

Da atual gestão, que acaba de cumprir 25% do seu mandato, tirando as redes sociais não há muito o que falar. Mesmo antes de tomar posse, o Tiago Amaral articulou aumento salarial para prefeito e secretários (veja matéria da Câmara). Depois o prefeito batalhou para que secretários que tivessem outro emprego público acumulassem dois salários (o de secretário e o do outro emprego público) (veja a matéria do G1) – o prefeito recuou diante de uma manifestação do MP (veja matéria do G1).

Para a cidade, nada. Não há projeto, não há gestão, não há ideias. Só Instagram. Ontem, vi no telejornal Meio Dia Paraná uma reportagem sobre o desleixo com a Rodoviária (veja reportagem da Globo). A situação é de abandono. Para quem precisa respirar, entrar no banheiro na Rodoviária é um ato de bravura. Afinal, ninguém viaja para Nova Iorque ou Paris de ônibus. 

Em síntese, a sensação é de que a cidade está abandonada, com mato alto, buracos aparecendo no asfalto e a impressão de que se Londrina for acelerar em algum momento, como prometido na campanha eleitoral, será na direção do abismo.

Eu brincava que na gestão de Marcelo Belinati havia uma “editoria de obras atrasadas”. As obras atrasavam e eram aditivadas. Mas eram obras e mesmo atrasadas, eram concluídas. Agora só restou o mato. A ponto de os meméticos de plantão já terem colocado um “Matagal” no lugar do sobrenome do prefeito Tiago. Como eu disse no começo o mato é um agente político poderoso. E tem uma capacidade de síntese inigualável: ele resume em centímetros (que em breve serão metros) a qualidade da gestão e de suas políticas para a cidade.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Tem Londrina.


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