Religião e Política

Fragmento de uma reflexão que nos ajuda a pensar o atual cenário da política partidária nacional atrelada a convicções religiosas fundamentalistas (Evangélicas/Católicas).

A compreensão do filósofo francês Christian Delacampagne ao afirmar que “O problema é que, a partir do momento em que numa sociedade qualquer os partidos religiosos assumem importância excessiva, o jogo político fica prejudicado. […] Os partidos religiosos são, como parceiros sociais, jogadores que não respeitam as regras. Sua ambição não é a partilha do poder, mas seu confisco” (DELACAMPAGNE, 2001, p. 33-34).

Charge / Latuff

O referido autor chama a atenção para o fato de que em uma comunidade política democrática os princípios da laicidade e da tolerância religiosa são fundamentais para manter a própria democracia. Quanto à tolerância religiosa, o Estado é obrigado a garantir que todas as expressões de fé, ou mesmo sua negação, sejam preservadas e, desta forma, pressupõem a garantia da separação entre religião e política, ou separação entre Igreja e Estado. A religião tem direitos no espaço privado, enquanto o Estado tem direitos de legislar no espaço público. Contudo, essa laicidade apregoada é muito frágil e, com o avanço do fundamentalismo religioso, a própria democracia torna-se ameaçada (DELACAMPAGNE, 2001, p. 29-41).


Vamos refletir sobre a questão do aborto

No último 18 de junho a Argentina deu um passo histórico na direção dos direitos reprodutivos das mulheres, aprovando na Câmara dos Deputados a legalização do aborto seguro e gratuito. Lembrando que a Argentina é um país de forte tradição católica, o atual Papa é argentino, embora progressista, a nação é fortemente conservadora. Mas diante dos vários debates públicos e das reais necessidades que envolvem o mundo feminino, aprovaram o projeto, aguardando a votação no Senado.”

No Brasil, o tema ainda aparece como tabu. O tema aflora os sentimentos de piedade, de compaixão, tristeza pelo feto e ódio contra quem defende a liberdade da interrupção da gravidez. E aqui está um problema: discutir um tema tão sério e importante como esse com base em sentimentos pessoais e crenças religiosas, quando o tema exige muita racionalidade, reflexão e observação de casos reais do cotidiano. Os contrários ao aborto repetem incansavelmente que os dados apresentados são falsos, afirmam também que o aborto interessa a multinacionais que ganhariam muito dinheiro com os procedimentos. Mas quem vivencia a realidade dessas mulheres e quem faz pesquisa séria e honesta apontam dados irrefutáveis acerca da terrível realidade.

Um fato que não se pode negar é que a proibição e/ou criminalização não evitam que mulheres de todas as idades e estratos sociais abortem. A criminalização não impede o aborto, mas faz com mulheres morram em procedimentos clandestinos. A proibição não faz uma mulher repensar se deve ou não fazer o aborto, mas coloca mais peso sobre a mulher que já está fragilizada, pois tem que levar como segredo para o resto da vida. Portanto, discutir seriamente a descriminalização do aborto passa necessariamente por questões éticas e de saúde pública.

O Superior Tribunal Federal propôs uma audiência pública sob a coordenação da Ministra Rosa Weber que aconteceu nos dias 03 e 06 de agosto. Foram dois dias riquíssimos de debate, análise e testemunhos. Argumentação de pesquisadoras nas aéreas de bioética, antropologia, medicina, feminismo, direito e religião. Um fato que marcou todo o debate foi o recorte de raça e condição de existência, para além de toda a questão que é comum a todas. Isso quer dizer que a questão do aborto para mulheres negras e mulheres com deficiências é muito mais difícil, mas não nos damos conta, pois este fato foge da realidade existencial de muitos de nós.

Por mais que eu me expresse, argumente e tente explicar meu ponto de vista não alcançaria um décimo da riqueza apresentada pelas debatedoras nesta audiência pública. Assim, deixo para vocês assistirem a três argumentações que para mim foram as mais fundamentais.

* Dra. Débora Diniz, antropóloga, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora do Instituto de Bioética. Após sua argumentação na audiência recebeu ameaças de morte de um homem da região de Curitiba.

* Reverenda Dra. Lusmarina Campos Garcia, pastora evangélica de Confissão Luterana. Graduada em Teologia, Direito e Ciências Sociais. Atuante do Movimento Ecumênico pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI-Genebra).

* Dra. Adriana Abreu Magalhães Dias. Antropóloga, indicada pelo Instituto BARESI para falar como representante das pessoas com deficiência e doenças raras.

No contraponto segue o discurso daqueles que se dizem pró-vida:

Reprodução / Facebook

Reprodução / Facebook

Reprodução / Facebook


NEOLIBERALISMO ontem e hoje…

“Observa-se exatamente a mesma coisa nos Estados Unidos, onde se assiste à multiplicação dos empregos precários e sub-remunerados (que fazem baixar artificialmente as taxas de desemprego). As classes médias americanas, submetidas à ameaça da demissão brutal, conhecem uma terrível insegurança (mostrando assim que o importante num emprego não é apenas o trabalho e o salário que ele oferece, mas a segurança que ele garante). Em todos os países, a proporção dos trabalhadores temporários cresce em relação à população dos trabalhadores permanentes. A precarização e a flexibilização acarretam a perda das insignificantes vantagens que podiam compensar com salários baixos, como o emprego duradouro, as garantias de saúde e de aposentadoria. A privatização, por sua vez, acarreta a perda das conquistas coletivas”. 

Pierre Bourdieu, conferência em Atenas, 1996.

Tão Brasil, tão atual…


A saúde de Londrina e o prefeito médico

“Saúde é um direito que precisa e deve ser respeitado”
Candidato Marcelo Belinati.

Londrina está doente e continua com atendimento precário…

Segundo reportagem de Bruno Carraro (CBN), nesta terça-feira, 26, a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Jardim Sabará e a UBS (Unidade Básica de Saúde) do Jardim Leonor estavam lotadas, com pacientes esperando atendimento por mais de 6h. A Secretaria de Saúde justifica a superlotação por meio do argumento: “apenas um dia atípico”.

O problema que este “dia atípico” é recorrente em Londrina já há vários anos. Somente em 2018 a Tarobá News registrou reclamações em 24 de janeiro (UPA Jardim do Sol), 06 (UPA Sabará) e 22 de março (UPA Jardim do Sol e Sabará), 25 de junho (UPA Sabará e Pronto Atendimento Infantil), todos com reclamações pela demora no atendimento, chegando a 9h de espera. Na UBS da Vila Ricardo (zona leste) não havia nenhum médico. Ainda segundo reportagem da Tarobá, “Na Santa Casa de Londrina, quem procura atendimento aos finais de semana fica surpreso: de acordo com uma recepcionista que não quis se identificar, da madrugada de sábado até a manhã de segunda-feira não há médico plantonista no pronto atendimento – os pacientes são encaminhados ao Mater Dei, que acumula pacientes e não demonstra capacidade para atender a demanda” (25/06/18).

O problema na saúde de Londrina não é falta de recursos financeiros, pois o orçamento beira os 600 Milhões de Reais, conforme o próprio prefeito, ainda candidato, havia anunciado em 2016. A saúde londrinense só não está pior porque tem uma forte tradição de participação popular e de trabalhadores nas instâncias populares de saúde, organizados no Conselho de Saúde, atuando diretamente nas Conferências, na elaboração de planos de ação, na formulação de políticas de saúde e fiscalização do executivo.

Muito interessante e contraditório é que o prefeito de Londrina, Marcelo Belinati que também é médico, já anunciava em campanha, em 2016, qual era o problema da saúde em Londrina. Nessa ocasião, ele criticava a administração anterior dizendo que faltavam médicos e remédios nas UBS. Durante entrevista de campanha para a Massa News em setembro de 2016, afirmou Marcelo Belinati que “quem administra este orçamento (587 Milhões de Reais) é a prefeitura, faltam médicos nos postos, faltam remédios. Se tem tudo isso de dinheiro e falta tudo na nossa rede pública, o que está acontecendo? Alguma falha tem! Na minha opinião é eficiência de gestão. Temos que administrar esses recursos adequadamente, estruturar as nossas UBS’s com médicos e remédios, valorizar o profissional da saúde […]”.

Como sempre, e sempre, o problema no setor público está na gestão, identificado pelo candidato em 2016 e perpetuado pelo prefeito nos dois anos de mandato. E aqui temos que questionar: Prefeito Marcelo Belinati, onde está o seu compromisso com a saúde de Londrina? Pois nesta mesma entrevista, o senhor, como bom Belinati que é, introduziu sua resposta da seguinte maneira: “Londrina, eu quero assumir um compromisso com a cidade, nós vamos resolver sim! Nós vamos melhorar [os problemas da saúde]”.

Como candidato, também prometeu ampliação do Programa Saúde da Família e do SAMU. Ocorre que o programa Estratégia Saúde da Família – ESF (o antigo Médico da Família e posteriormente o Programa Saúde da Família), que era a esperança do povo brasileiro na perspectiva da assistência preventiva, hoje encontra-se absolutamente sucateado e abandonado pela Secretaria de Saúde. As equipes da ESF estão incompletas e desestruturadas, sendo elas fundamentais no processo de prevenção das doenças. Ao invés de obedecerem a orientação do Ministério da Saúde e fazerem a assistência preventiva em cada domicílio, cumprem outro papel atendendo a demanda espontânea curativista dentro da UBS, já que a Secretaria não tem médicos suficientes para o atendimento domiciliar e no território da UBS. E assim, mais uma vez o “compromisso” do prefeito não passa de promessas de campanha.

E onde estão os vereadores que deveriam fiscalizar e cobrar as ações do executivo? Muito deles, obcecados por pautas únicas, deixam a desejar na criação de projetos eficientes e necessários para a cidade. Deixam a desejar na cobrança daquilo que já está estatuído, mas no que diz respeito ao moralismo e ao conservadorismo são os primeiros a se manifestarem. Assim, sofremos com um prefeito que falha em sua gestão e que conta com uma Câmara de vereadores ineptos.

Sim, Marcelo, seu discurso é correto ao afirmar que “Saúde é um direito que precisa e deve ser respeitado”, portanto respeite o direito dos londrinenses!

O Conselho Municipal de Saúde também precisa se mobilizar e exigir que a Secretaria de Saúde cumpra suas funções com eficiência e desempenhe uma gestão resoluta. Precisamos nos mobilizar como sociedade organizada e cônscias de seus direitos e cobrar o prefeito Marcelo Belinati, os vereadores e a Secretaria de Saúde para que o município ofereça serviços e atendimento básico, secundário e terciário de boa qualidade, que haja fiscalização geral e não apenas nestas unidades de pronto atendimento.


Os evangélicos que defendem o “Regime Militar”

É sabido que pastores evangélicos de várias denominações apoiaram a Ditadura Civil Militar de 1964. Muitos deles apoiaram abertamente, enquanto outros, disfarçadamente, como o demônio que age sorrateiramente na calada da noite. Os documentos que foram enviados para o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em Genebra, pelo franciscano Dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor presbiteriano Jaime Wright,  retornaram ao Brasil e foram estudados e publicizados pela Comissão da Verdade, revelando muitos nomes de pastores e membros leigos que estavam trabalhando para o DOPS (Departamento Ordem Política e Social). Assim, familiares de muitos desaparecidos e perseguidos/torturados políticos descobriram que os denunciantes foram seus pastores e “irmãos/ãs” de fé.

Nada justifica o apoio dado naquele momento aos ditadores, torturadores e assassinos, muito menos em nome do evangelho, mas ainda assim, podemos pensar que havia menos acesso às informações rápidas como atualmente, muitos deles apoiaram simplesmente em nome da “neutralidade” sobre questões políticas, outros por absoluta ignorância e embotamento por causa dos discursos construídos. No entanto, muitos deles estavam cientes e concordavam com tudo que ocorria nos porões do DOPS e da OBAN (Operação Bandeirante).

Depois de tudo que já fora escrito, pesquisado, denunciado com provas documentais cabais não é razoável, ou mesmo lógico, afirmar que a Ditadura não torturou, perseguiu e matou indiscriminadamente. Esse discurso reformista age pela negação, mas sem comprovação alguma, semelhantemente àqueles que negam as atrocidades do nazismo. No caso brasileiro, relatos de sobreviventes torturados, sequelados física e emocionalmente, cemitérios clandestinos descobertos com ossadas comprovadamente de militantes contrários ao regime ditatorial, instituições da sociedade civil brasileira e internacional denunciando as atrocidades deste período com base em documentos oficiais, são inquestionavelmente provas do horror da Ditadura. Desta feita, torna-se indesculpável aquele ou aquela que defende a Ditadura Civil militar como opção.

A título de exemplo, vejamos alguns relatos:

Foto: José Patrício / Estadão

Leia: Relato de Anivaldo Padilha, torturado e exilado político, denunciado pelo próprio pastor metodista.

Leia: Reportagem da revista ISTOÉ sobre os evangélicos no período da Ditadura.

Cenas de tortura no pau-de-arara e choques elétricos. Filme Batismo de Sangue que narra a história do Frei Beto e outros jovens perseguidos, torturados e mortos.

Depoimento de Eny Moreira sobre a tortura e morte de Aurora Maria do Nascimento Furtado.

Depoimento de tortura de Rose Nogueira, jornalista do Folha da Tarde.

Assim, elogiar, defender, exaltar, clamar pela Ditadura e pelos Ditadores é estar conivente com todas as mortes, com todas as torturas e todas as barbáries. É rasgar a Constituição Federal de 1988 e assinar a carta antidemocrática e desumana. E, para os cristãos é ignorar os ensinamentos do Deus que se revela como amor e assumir a maldade.

Torna-se indesculpável um pastor evangélico que faça aclamação à Ditadura Militar e depois ora pedindo bênçãos a Deus, dizendo-se adorador de Jesus, o Cristo Libertador. Torna-se contrassenso ele querer liberdade religiosa, declarar palavras de amor a/de Deus, orar pela paz, mas divulgar o ódio e o preconceito contra muçulmanos, espalhando notícias falsas, portanto, praticando a mentira que é “filha do Diabo”.

Torna-se uma aberração que ele venere Jesus de Nazaré, que foi condenado e morto sob acusação de banditismo e agitador, mas ao mesmo tempo peça pena de morte e elogie a morte de outras pessoas que estão à margem da sociedade, que praticam crimes. Prega que o amor de Deus salva, redime do pecado, produz arrependimento e transformação, mas xinga e condena os refugiados do oriente médio como se eles fossem terroristas. É o limite da desumanização e o fim dos ideais humanistas.

Em Londrina-PR, temos alguns pastores evangélicos que reproduzem tais bestialidades. Há, entre eles, quem estimule o ódio contra aqueles que pensam politicamente diferente, demonizando e atribuindo todo o mal sócio-político e econômico a determinado grupo ou indivíduo, assim como os nazistas fizeram com os judeus na Alemanha no período que antecedeu o holocausto. Há também quem diga que, se fosse do alto comando do Exército, já teria iniciado a Ditadura. A partir disso, percebemos que a defesa de todas as desumanidades relatadas nos depoimentos acima é racionalmente esclarecida, ou seja, não se pode falar em inocência.

Tais pastores, legitimados pelo discurso da consagração espiritual e representação divina, pregam uma mensagem apocalíptica destruidora que tem um efeito de sentido aterrorizante, causando medo e revolta nos ouvintes. O medo, portanto, é um mecanismo ideológico utilizado para controlar as mentes e direcionar politicamente. Max Weber, sociólogo alemão, já dizia que o medo é parte do mecanismo de dominação.

Para saber mais sobre a Comissão da Verdade veja a entrega do Relatório da Comissão da Verdade em 10/12/2014, clicando aqui.


Feliz Páscoa

FELIZ PÁSCOA… no Brasil cristianizado…

Charge – Jornalistas Livres / Edu


Sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro

A notícia que mais tem sido divulgada nesses últimos dias é a famigerada Intervenção Federal/Militar no Rio de Janeiro. A justificativa é de que o Estado do Rio de Janeiro está fora de controle e o Estado brasileiro precisou agir para “restabelecer a ordem”. A argumentação principal é a de que o Governo está preocupado com as “pessoas de bem” e que o estado paralelo do crime nos morros do Rio precisa ser desmontado.

Alguns cientistas políticos afirmam que esta intervenção está sob um cálculo político muito preciso, uma vez que a Reforma da Previdência não seria aprovada na Câmara dos deputados. Então, Michel Temer armou esse circo, decretando intervenção, para que o foco da população e da mídia não reverberasse sua derrota, sendo nada mais que uma cortina de fumaça. Além disso, o uso de militares contra o tráfico responde a um apelo social que tem aumentado nos últimos anos a partir do recrudescimento da intolerância e do ódio. Lembremos que nas manifestações a favor do impeachment muitos pediam “intervenção militar”, dessa forma, a ação de Temer pode ser uma última tentativa de diminuir sua rejeição.

Foto: Internet

O problema nisso tudo é que as pessoas pobres das favelas do Rio de Janeiro sofrerão as agruras dessa intervenção, tendo suas casas e direitos violados pelo aparato repressor do Estado, e o problema maior não será resolvido. Pode até ser remediado temporariamente, mas não resolvido, pois é o próprio Estado o causador deste caos.

É verdade que a situação no Rio de Janeiro é caótica, desesperadora e muito problemática. Mas não é com intervenção militar que esse problema será resolvido. O que já foi gasto com aparato militar poderia ter sido investido em ações sociais, com resultados muito melhores. Portanto, o Rio de Janeiro, como também São Paulo e outros estados que sofrem com o tráfico e a violência urbana, necessita de uma Intervenção Social, Educacional, Investimento Público em esporte, lazer e políticas de emprego e renda para diminuir a desigualdade social e política. Sim, necessita de uma grande transformação!

A falência do Estado na proteção do menor e na ação social, da política de segurança e das penitenciárias brasileiras e do Judiciário, que demora anos para julgar um caso, são as causas principais desta situação.

Para justificar o que foi dito até agora e colocar argumentos mais precisos, advindo de pesquisas consistentes, assistam a estas entrevistas:

A socióloga Julita Lemgruber, especialista em segurança pública, aponta os problemas no sistema penitenciário brasileiro, quando houve a rebelião no Rio Grande do Norte em 2017. Segundo ela, mais da metade dos presos provisórios, quando julgados, recebem uma pena diferente da pena de prisão, ou seja, estão presos indevidamente. Resultado: cooptação pelas facções internas. Ela apresenta mais dados estarrecedores.

Clique na imagem para acessar o Vídeo

A cientista política Jaqueline Muniz, profa. Da UFF, fala sobre teatralização operacional da polícia do Rio de Janeiro que produz pouco efeito no cotidiano. O dia-a-dia do policiamento foi substituído pelas grandes operações que dão retorno midiático e político, mas nenhum retorno ao problema do crime organizado. Para a professora, a intervenção militar terá efeito de “espanta-baratas”.

Para compreendermos que todo esse processo é muito mais complexo do que prender e matar “bandido na favela”, basta observar como as armas de grosso calibre chegam às mãos do crime organizado.

Segue uma sequência de reportagens sobre o tráfico de armas por meio de policiais e agentes do Exército. Prática já denunciada pela pesquisadora de Alba Zaluar na década de 1980, que deu origem ao filme Cidade de Deus. Com isso, não se pretende acusar toda a corporação, mas não podemos fechar os olhos para esse fato.

Sargento do Exército foi preso com armas e drogas destinado ao Rio de Janeiro:

Militares do Exército foram presos com mais de 300 kg de drogas na região de Arapongas-Pr:

5 policiais militares foram presos por tráfico de armas apreendidas em operações em Minas Gerais:

Clique na imagem para ver o Vídeo

Oficiais da Marinha foram presos com armas e muita munição que eram destinadas ao Rio de Janeiro:

Policial do Estado do Rio de Janeiro é preso por suspeita de tráfico internacional de armas:

Acredito que esses dados possam orientar uma reflexão mais crítica sobre esse tema, que é urgente em nossa sociedade. Mas, de toda forma, é apenas uma porta de entrada para uma vasta pesquisa que deve ser feita sobre o problema da segurança pública, intervenção militar, desigualdade social e corrupção em todas as instâncias de poder.


Evangélicos e gays, algozes ou vítimas?

Neste final de semana (18/02) experienciei um belo diálogo sobre a questão da diversidade sexual e a fé cristã com uma família de evangélicos que tem uma filha homossexual. A jovem é amada e aceita em sua condição pelos pais, mas relatou que viveu noites de muita angústia, e muito choro, por causa do medo da reação deles ao assumir sua homossexualidade. Considerando inúmeros casos semelhantes, resolvi republicar este artigo escrito em 2013.

O debate sobre os evangélicos e a causa dos homoafetivos tem sido pauta todos os dias nos jornais e nas redes sociais, principalmente depois do evento Malafaia/Feliciano e seus polêmicos discursos. No dia 19 de abril de 2013 um jovem de 23 anos morreu após cair/se jogar da torre telefônica em Rondônia e o site Uol postou como título da reportagem: “Suicídio: Jovem gay se joga de torre em Rondônia após ser rejeitado por família evangélica”.

Casos como este, e outros que não são revelados, nos faz pensar sobre a dor e a tristeza do preconceito. E traz à luz o antagonismo da fé que, ao invés de promover a vida e a liberdade, promove a rejeição, o sofrimento e a morte. Percebemos nisto, que em tempos pós-modernos a cosmovisão mágica voltou com todo fôlego e trouxe à tona o preconceito adormecido e escondido do brasileiro supostamente gentil, acolhedor e “cordial”, mas esses valores servem apenas para seu algoz movido pelo espírito submisso. Porém, quando este, supostamente cordial, encontra-se com alguém que considera inferior, transforma-se também num feroz algoz.

Charge: Carlos Latuff

Mas há aqueles que não concordam com a associação direta dos evangélicos ao preconceito contra os gays e afirmam que é perseguição religiosa, é a “cristo-fobia”, “evangélico-fobia” e tantos neologismos vazios. Outros enfrentam o debate tentando mostrar que existem evangélicos que não são preconceituosos, embora não concordem com a prática homossexual. Outro argumento encontrado é de que os males não são exclusivos dos evangélicos, mas encontram-se também entre os mais variados setores da sociedade e acusam todos aqueles que criticam tais posturas também de preconceituosos. Portanto, veem nos críticos e nos militantes do movimento GLBT um algoz contra sua “liberdade religiosa”, reproduzindo as bravatas de Silas Malafaia e Marco Feliciano. Assim, quem é vítima de quem?

No período Medieval encontram-se relatos de que os canhotos eram estigmatizados e xingados de “mão do Diabo” e que, por isso, deviam fazer as coisas com a “mão certa, a direita”. Em italiano canhoto é “mancino”, que também dá a ideia de “pessoa desonesta”; esquerdo é “sinistro”, que está diretamente associado ao Diabo. A história, tristemente, relata casos como o da Ku Klux Klan, que matavam negros (ex-escravos) que tentavam buscar integração social e aquisição de terras após a guerra civil americana. Iniciado primeiramente como diversão de jovens confederados (sul dos EUA), a perseguição e humilhação contra os negros libertos foi tomando forma de ideologia da supremacia branca, que matou milhares de negros. No séc. XX, a KKK volta a se organizar com Willian Joseph Simmons (1915) que teve uma visão na qual entendeu como chamamento divino para cumprimento de uma missão religiosa cristã, e ampliou a perseguição contra judeus, católicos e estrangeiros. Desde seu início em 1865, a KKK teve como fundamento a fé cristã protestante e seguiu assim na nova organização no século XX, que arregimentou cerca de um milhão de membros em 1922. Na Alemanha nazista, a igreja Luterana apoiava Hitler no horrendo Holocausto, assassinando milhares de judeus, negros, homossexuais e deficientes físicos e mentais. No Brasil, durante a Ditadura Civil Militar, inúmeros padres, bispos e pastores evangélicos denunciaram seus irmãos na fé para o DOPS, muitos dos quais muitos nunca retornaram para suas casas, fato que está sendo escancarado com a Comissão da Verdade. E tantos outros casos semelhantes.

Mas, ao mesmo tempo, não podemos deixar de citar que a religião pode ser um catalizador de boas ações e luta contra a desigualdade e injustiça. Temos o exemplo de Dietrich Bonhoeffer, que arquitetou o assassinato de Hitler em nome do evangelho e das vidas que estavam sendo ceifadas por uma causa desumana. Mas dado ao fracasso de sua ação, a sentença foi a morte. Tivemos, no Brasil, militantes da Teologia da Libertação que sofreram perseguição e morte por causa também do evangelho contra a opressão da Ditadura Militar. Fica explícito nesses e tantos outros casos que a luta é em nome do EVANGELHO, mas não em nome dos EVANGÉLICOS.

Estão certos quando afirmam que nem todos os evangélicos ou cristãos são preconceituosos. E como exemplo, podemos citar a REDE FALE, o CONIC, e a Igreja Anglicana que se posicionaram enfaticamente contra as barbaridades ditas por Malafaia e Feliciano. Mas é preciso compreender também que o preconceito está permeado em todos os segmentos da sociedade brasileira, não é exclusivo da esfera religiosa.

Mas veja bem, o número de evangélicos tem crescido no Brasil, como também o número de crentes e católicos que apoiam publicamente a postura do Malafaia e do Feliciano, fato que tem se tornado público, revelando seus preconceitos escondidos ou mascarados. É sabido que entre os espíritas, os membros de religiões afro-brasileira, os sem-religião, os ateus e outros, a compreensão sobre a liberdade, o direito e a condição humana dos homossexuais são mais aceitos que entre religiosos que professam o cristianismo (digo isso de forma genérica e sob perspectiva de tendência).

Acontece que os evangélicos proclamam em alto e bom tom o discurso do amor, da paz e liberdade religiosa, da misericórdia, graça e compaixão, e sob esta bandeira espera-se que vivam e promovam estes valores para as outras pessoas, como ensina o Evangelho, sua regra de fé e prática. Mas quando outra pessoa afirma e reafirma uma postura ou identidade fora dos padrões morais do cristianismo ocidental é taxado como fora dos padrões de Deus e infiéis.

Esta postura não é diferente da do catolicismo medieval que afirmava: Extra Ecclesiam nulla salus [fora da igreja não há salvação], os evangélicos (leigos e pastores) têm reproduzido isso muito bem, e quem conhece os livros teológicos de Rubem Alves saberá muito do que estou falando. Portanto, a crítica está sobre os evangélicos, porque são eles que estão gritando contra os direitos dos corpos alheios. Se eles são contra a prática homoafetiva, então não tenham práticas homossexuais, mas não queiram propor o padrão moral individual sobre outras pessoas que, muitas vezes, não professam a mesma fé.

Dizer que é contra a prática sexual de outra pessoa, no caso, dos gays é tão ilógico e irracional, quanto seria se eles dissessem que os evangélicos não pudessem se casar, ou ter filhos, pois não compete a ninguém ditar o que é certo ou errado para a vida particular das outras pessoas. O problema dos pastores e padres é que eles se acham “pais”, “donos”, “senhores” da vida alheia e, com isso, determinam, ensinam o que é certo e errado, sob pena e punição, e jogam tudo isso nas costas de Deus, para legitimar seus próprios preconceitos.

Não podemos fechar os olhos para o horror que tem acontecido e que está explícito para quem quiser ver. Se o caso deste jovem fosse isolado toda essa discussão seria desconsiderada, mas bem sabemos que não é! Há inúmeros relatos de pessoas que rompem com suas famílias por causa de posturas semelhantes, outras pessoas vivem sob a pressão da suposta “cura gay” e tantos outros casos de opressão e até mesmo autoflagelo.

Ocorre que a cosmovisão evangélica é, em sua grande maioria, maniqueísta e reproduz tenazmente a frase: “se não é por nós é contra nós” e por ter a compreensão de que a homossexualidade é pecado, logo associa ao Diabo e ao desvio dos planos de Deus. Qual é o resultado desta conta metafísica? Portanto, associar a homossexualidade ao mal é mais do que comum! Quantos e quantos casos de “exorcismos”, “cura interior”, “aconselhamento pastoral para deixar de ser gay”, “indução a uma vida de eunuco” e “quebra de maldição” são direcionados para os homoafetivos.

O caso Malafaia/Feliciano tem sido um estopim a essa postura que estava ocultada e vivenciada no âmbito privado, mas que agora toma o espaço público. Como já disse: é obvio que há cristãos coerentes, sérios e respeitosos e que sabem seus limites quanto aos direitos daqueles que são diferentes. Mas a atualidade tem demonstrado uma tendência evangélica, e é exatamente esta quem tem sido a criticada – e com muita razão – e deverá ser combatida, pois senão voltaremos aos tempos de obscurantismos em tempos de sociedade laica, isto é, sem uma religião única e o oficial, mas ao mesmo tempo, resguardando a pluralidade e não somente religiosa.

O problema em si não é a religião evangélica propriamente dita, mas é a contradição que há no discurso hegemônico em relação aos princípios da própria religião. O direito de ser contra a homoafetividade ou qualquer prática de âmbito privado se encerra em seu próprio corpo e em sua própria vida. Nem mesmo há direito sobre os corpos dos filhos, caso eles/as sejam gays, cada um tem que dar conta de si e ponto.

O que os homossexuais querem é simplesmente respeito e liberdade sobre eles mesmos. A suposta “ditadura-gay” é um terrorismo ideológico que religiosos mal intencionados têm disseminado sobre uma massa desinformada e que absorve tais ideias como esponjas. Se os evangélicos e católicos querem ser testemunhas fieis de seu mestre, sejam como ele foi: inclusivo. E lute contra a religião/religiosidade que promove o medo, a perseguição e a morte, como ele fez em sua época. Quem é o algoz e quem é a vítima? A resposta depende de quem executa a perseguição e de quem é perseguido e por quais motivos.

 


Algumas questões sobre a reforma da previdência social

O governo Temer tem se empenhado firmemente para aprovar a Reforma da Previdência sob alguns argumentos: “salvar as aposentadorias”; “garantir a sustentabilidade da Previdência Social”; “fazer o Brasil crescer novamente”; “reformar a Previdência para garantir o futuro”; “reformar antes que o pior aconteça”; “reformar para o Brasil não quebrar”; “o Brasil terá mais dinheiro para investir na educação, saúde e segurança”; e o melhor de todos é “acabar com os privilégios”.

Internet

Em 2017, o governo liberou cerca de R$ 8 bilhões em emendas parlamentares, além disso, ofereceu jantares de luxo, tudo isso para ganhar o favor dos deputados na votação da Reforma da Previdência. Mas ainda assim o governo não tem os 308 votos necessários para sua aprovação. Um dado interessante é o mercado estar focado nessa reforma, tanto que o sobe e desce da bolsa e o sobe e desce do dólar estão diretamente relacionados, como forma de pressão em favor das reformas.

Temer utilizou a mesma estratégia de Collor para atingir a massa mais pobre e desinformada da população brasileira, foi ao programa Silvio Santos tentar explicar seus objetivos e ter o apoio do apresentador mais carismático e longevo da TV brasileira. Em 1990, a então Ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Melo esteve com Silvio Santos para “garantir” o retorno do dinheiro que foi confiscado das poupanças. Agora, no caso da Reforma da Previdência, o próprio Temer esteve no programa e, mais uma vez, Silvio Santos foi porta-voz de legitimação da suposta benevolência do governo.

Temer afirmou para o apresentador que o déficit da Previdência fechou no valor de R$ 189 bilhões e que no ano que vem será de R$ 220 bilhões. No entanto, a página Planalto, no Facebook, afirmou que o déficit de 2017 foi de R$ 268 bilhões. A farsa é tão grande que eles insuflam os números a bel-prazer para assustar a população.

Além do programa dominical, os (tele)jornais dos grandes meios de comunicação têm feito seu papel de ideólogo e construtor de “opinião pública” na medida em que repassam exaustivamente as informações do “rombo da previdência” e da “necessidade da Reforma”, cumprindo muito bem seu papel de Garoto Propaganda. Ocorre que a CPI feita em 2017 comprovou que não há déficit. Segundo reportagem do Senado.

O documento alega haver inconsistência de dados e de informações anunciadas pelo Poder Executivo, que “desenham um futuro aterrorizante e totalmente inverossímil”, com o intuito de acabar com a previdência pública e criar um campo para atuação das empresas privadas (25/10/17).

Internet

É preciso considerar que a Reforma do Teto do gasto público irá causar dificuldades em investimento na saúde, já iniciado com o corte nas Farmácias Populares. Além disso, a Reforma trabalhista causará um grande problema para os cidadãos num futuro breve. A terceirização, a ampliação do trabalho informal mediante o aumento do desemprego e a legalização do trabalho intermitente, acarretará ainda mais o empobrecimento do trabalhador, não tendo condições de pagar a Previdência, logo morrerá sem se aposentar. Assim, os idosos se tornarão mais empobrecidos e não terão condições de arcar com seus remédios e tratamento de saúde. O que podemos esperar dessa “receita”? O Estado financiando planos de saúde de uma parcela da população e, mais uma vez, empresas privadas enriquecendo às custas da pobreza com dinheiro público.

Como diz o ditado popular, perguntar não ofende, então vamos lá…

* Que bem quer para os brasileiros esse governo? Sendo que:

  • Piorou as leis trabalhistas, por meio da Reforma da CLT;
  • Piorou a Educação, por meio dos cortes e Reforma da BNCC;
  • Piorou a empregabilidade e a segurança ao trabalhador em nome do lucro do empresário;
  • Piorou a capacidade de consumo da população pobre com aumento do preço dos combustíveis, do gás e com aumento das taxas de juros, impedindo novas aquisições;
  • Piorou a segurança jurídica, que deveria ser o último bastião de esperança de uma nação, considerando que governo não é apenas o executivo, mas também o legislativo e o judiciário.

 

* Como a Reforma da Previdência pode ser positiva para a população se o maior interessado é o capital?

* Como pode ser positiva uma Reforma que produzirá mais crise, ao invés de segurança para os trabalhadores pobres?

* Como acreditar em um governo que gasta milhões com propaganda para passar uma ideia falseada de sua proposta?

Segundo o prof. de economia Marcio Pochmann (UNICAMP), em audiência pública na Câmara dos deputados, essa reforma acabará com a seguridade social criada com a Constituição de 1988, retornando ao antigo modelo dos militares conhecida sob a sigla INPS (Instituto Nacional de Previdência Social). Afirmou ainda que a arrecadação será ainda mais reduzida visto que ocorrerá maior desemprego, oferta de menor salário e, portanto, aumento da pobreza.

Isso nos leva a uma mobilização contrária à Reforma da Previdência!

Não aceite as mentiras desse governo.

 

Para maiores informações sobre a CPI da previdência acesse:


A incoerente administração Belinati

A demagogia é a capacidade de vestir as ideias
menores com palavras maiores.
Abraham Lincoln

No dia que antecedeu a sua posse como prefeito de Londrina, Marcelo Belinati (PP) concedeu entrevista ao programa Jogo Aberto, apresentado por Fernando Brevilheri (TV Tarobá), mas com respostas genéricas e evasivas, como um bom Belinati. Em um determinado momento o apresentador descreve o cenário das demandas locais e as projeções para 2017 que estavam sendo difundidas pela grande mídia e o perguntou: “o que o povo pode esperar [do prefeito] dentro de um cenário tão ruim como este que está sendo projetado?”.

A resposta de Marcelo Belinati foi digna de um candidato em entrevista de emprego: “criatividade e dinamismo, Fernando […] mas por que criatividade? Se falta recurso aqui, nós vamos buscar recursos em outras esferas de governo”.

O problema é que estamos vendo e sentindo na pele o tal do “dinamismo” e da “criatividade” do prefeito Marcelo Belinati, não em “conseguir recursos em outras esferas de governo”, mas em relação à planta de valores do IPTU e agora com o Passe Livre.

E o que torna a situação pior é sua demagogia. Pois um dos argumentos fortes em favor do aumento do IPTU estava em corrigir injustiças, uma vez que, segundo Belinati, havia em Londrina milhares de casas de alto luxo que não pagavam IPTU:

Já fizemos todos os cortes necessários, já fizemos. E outra, não tem essa de aumentar tanto, Fernando. Nós temos que falar a verdade para o senhor [ouvinte] o que acontece em Londrina, vamos contar a verdade que ninguém nunca quis contar? Tem milhares de casas de alto luxo que não pagam o IPTU (Programa Jogo Aberto, set. 2017).

Outro argumento que segue a mesma na linha, ou seja, de combater as injustiças e distorções, foi sobre o valor pago por grandes áreas de terrenos que estava na cifra de R$ 34,00:

Tanto o presidente da Câmara, Mário Takahashi (PV), como prefeito Marcelo Belinati (PP) disseram que os maiores reajustes são para grandes áreas ou em casos onde havia distorções. “Os maiores reajustes são para grandes terrenos do município ou para corrigir distorções”, afirmou o vereador. “Os técnicos relatam que há vários casos de terrenos que foram comprados por R$ 150 mil e pagavam R$ 34 de IPTU. Com a correção, pagarão cerca de R$ 1.500.” (PORTAL BONDE, 07 set. 2017).

Se a política fosse realmente para equalizar distorções e redução da injustiça seria perfeito, uma vez que, de fato, a partir da especulação imobiliária muitos imóveis e terrenos supervalorizaram no período do PAC (Programa de Aceleração e Crescimento), e neste caso, maior valor de IPTU seria justo, porque houve supervalorização. Mas não é o caso.

Depois de enfrentamentos na Câmara dos vereadores e novas propostas, o projeto foi aprovado e com isso 98% dos imóveis de Londrina terão reajustes. Mas como na política as coisas não são tão simples, temos que ficar atentos aos “cavalos de Tróia” embutidos nos projetos de lei.

Foi o que aconteceu na segunda semana de dezembro, quando o executivo encaminhou um projeto de lei para a Câmara de vereadores sobre o IPTU social para imóveis de baixa renda. Mas embutido no mesmo projeto estava a isenção total para terrenos acima de 10 mil metros, que hoje paga 1,5%, e assim, favorecendo o setor imobiliário e as “casas de alto luxo”. Esta é a criatividade do prefeito!

Outro caso emblemático de criatividade e dinamismo foi o passe livre. Sobre o qual, durante entrevista Marcelo Belinati apresentou justificativas plausíveis, mas no final demonstrou mais uma vez sua demagogia.

Charge: Aquino

Segundo o prefeito, o município tem um grande déficit de arrecadação e, por isso, não poderia arcar com o custo do passe livre universal. E mais uma vez apresentando o discurso da injustiça, pois, segundo ele, não seria possível um estudante de medicina que tem carro zero km ter direito ao passe livre. Por essa lógica, a reformulação na lei que garante o passe livre deveria acontecer. E o que se esperava era uma nova lei que colocasse limites a partir de determinada renda familiar para ter direito ao transporte público gratuito. Isso no campo do discurso.

Na realidade, o projeto que chegou à Câmara municipal foi de corte total do passe livre, exceto para estudantes do ensino fundamental sobre o que a LDB legisla, mas que, segundo o vereador Rony Alves, estes alunos são os que menos necessitam em nosso contexto local, pois são matriculados próximos às suas residências.

Interessante as informações que o vereador apresenta, pois, segundo ele, no governo do Alexandre Kireeff o orçamento para o passe livre era de 32 milhões e ao final do mandato teve um acréscimo de mais 10 milhões. O valor máximo gasto com o transporte público não passou dos 23 milhões, ou seja, a conclusão do vereador é certeira quando afirma que este corte não parte de problema econômico, mas de política de governo. E mesmo que fosse falta de recursos, por que ele estaria rejeitando o IPTU de alto valor dos grandes terrenos?

Estes dois casos são emblemáticos da política de Marcelo Belinati. Imperativo da incoerência e da demagogia, pois as ações não coadunam com os discursos. Cabe aos vereadores fiscalizar estas ações e rejeitar todos os “cavalos de Tróia”. Mas cabe ainda mais aos cidadãos londrinenses reclamarem e exigirem uma administração justa e democrática.

 


Edson Elias

Doutorando em Ciências Sociais (UNESP-Marília); Mestre e Graduado em Ciências Sociais (UEL-Londrina); Pesquisador e Professor na área de Sociologia.


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