Evangélicos e gays, algozes ou vítimas?

Neste final de semana (18/02) experienciei um belo diálogo sobre a questão da diversidade sexual e a fé cristã com uma família de evangélicos que tem uma filha homossexual. A jovem é amada e aceita em sua condição pelos pais, mas relatou que viveu noites de muita angústia, e muito choro, por causa do medo da reação deles ao assumir sua homossexualidade. Considerando inúmeros casos semelhantes, resolvi republicar este artigo escrito em 2013.

O debate sobre os evangélicos e a causa dos homoafetivos tem sido pauta todos os dias nos jornais e nas redes sociais, principalmente depois do evento Malafaia/Feliciano e seus polêmicos discursos. No dia 19 de abril de 2013 um jovem de 23 anos morreu após cair/se jogar da torre telefônica em Rondônia e o site Uol postou como título da reportagem: “Suicídio: Jovem gay se joga de torre em Rondônia após ser rejeitado por família evangélica”.

Casos como este, e outros que não são revelados, nos faz pensar sobre a dor e a tristeza do preconceito. E traz à luz o antagonismo da fé que, ao invés de promover a vida e a liberdade, promove a rejeição, o sofrimento e a morte. Percebemos nisto, que em tempos pós-modernos a cosmovisão mágica voltou com todo fôlego e trouxe à tona o preconceito adormecido e escondido do brasileiro supostamente gentil, acolhedor e “cordial”, mas esses valores servem apenas para seu algoz movido pelo espírito submisso. Porém, quando este, supostamente cordial, encontra-se com alguém que considera inferior, transforma-se também num feroz algoz.

Charge: Carlos Latuff

Mas há aqueles que não concordam com a associação direta dos evangélicos ao preconceito contra os gays e afirmam que é perseguição religiosa, é a “cristo-fobia”, “evangélico-fobia” e tantos neologismos vazios. Outros enfrentam o debate tentando mostrar que existem evangélicos que não são preconceituosos, embora não concordem com a prática homossexual. Outro argumento encontrado é de que os males não são exclusivos dos evangélicos, mas encontram-se também entre os mais variados setores da sociedade e acusam todos aqueles que criticam tais posturas também de preconceituosos. Portanto, veem nos críticos e nos militantes do movimento GLBT um algoz contra sua “liberdade religiosa”, reproduzindo as bravatas de Silas Malafaia e Marco Feliciano. Assim, quem é vítima de quem?

No período Medieval encontram-se relatos de que os canhotos eram estigmatizados e xingados de “mão do Diabo” e que, por isso, deviam fazer as coisas com a “mão certa, a direita”. Em italiano canhoto é “mancino”, que também dá a ideia de “pessoa desonesta”; esquerdo é “sinistro”, que está diretamente associado ao Diabo. A história, tristemente, relata casos como o da Ku Klux Klan, que matavam negros (ex-escravos) que tentavam buscar integração social e aquisição de terras após a guerra civil americana. Iniciado primeiramente como diversão de jovens confederados (sul dos EUA), a perseguição e humilhação contra os negros libertos foi tomando forma de ideologia da supremacia branca, que matou milhares de negros. No séc. XX, a KKK volta a se organizar com Willian Joseph Simmons (1915) que teve uma visão na qual entendeu como chamamento divino para cumprimento de uma missão religiosa cristã, e ampliou a perseguição contra judeus, católicos e estrangeiros. Desde seu início em 1865, a KKK teve como fundamento a fé cristã protestante e seguiu assim na nova organização no século XX, que arregimentou cerca de um milhão de membros em 1922. Na Alemanha nazista, a igreja Luterana apoiava Hitler no horrendo Holocausto, assassinando milhares de judeus, negros, homossexuais e deficientes físicos e mentais. No Brasil, durante a Ditadura Civil Militar, inúmeros padres, bispos e pastores evangélicos denunciaram seus irmãos na fé para o DOPS, muitos dos quais muitos nunca retornaram para suas casas, fato que está sendo escancarado com a Comissão da Verdade. E tantos outros casos semelhantes.

Mas, ao mesmo tempo, não podemos deixar de citar que a religião pode ser um catalizador de boas ações e luta contra a desigualdade e injustiça. Temos o exemplo de Dietrich Bonhoeffer, que arquitetou o assassinato de Hitler em nome do evangelho e das vidas que estavam sendo ceifadas por uma causa desumana. Mas dado ao fracasso de sua ação, a sentença foi a morte. Tivemos, no Brasil, militantes da Teologia da Libertação que sofreram perseguição e morte por causa também do evangelho contra a opressão da Ditadura Militar. Fica explícito nesses e tantos outros casos que a luta é em nome do EVANGELHO, mas não em nome dos EVANGÉLICOS.

Estão certos quando afirmam que nem todos os evangélicos ou cristãos são preconceituosos. E como exemplo, podemos citar a REDE FALE, o CONIC, e a Igreja Anglicana que se posicionaram enfaticamente contra as barbaridades ditas por Malafaia e Feliciano. Mas é preciso compreender também que o preconceito está permeado em todos os segmentos da sociedade brasileira, não é exclusivo da esfera religiosa.

Mas veja bem, o número de evangélicos tem crescido no Brasil, como também o número de crentes e católicos que apoiam publicamente a postura do Malafaia e do Feliciano, fato que tem se tornado público, revelando seus preconceitos escondidos ou mascarados. É sabido que entre os espíritas, os membros de religiões afro-brasileira, os sem-religião, os ateus e outros, a compreensão sobre a liberdade, o direito e a condição humana dos homossexuais são mais aceitos que entre religiosos que professam o cristianismo (digo isso de forma genérica e sob perspectiva de tendência).

Acontece que os evangélicos proclamam em alto e bom tom o discurso do amor, da paz e liberdade religiosa, da misericórdia, graça e compaixão, e sob esta bandeira espera-se que vivam e promovam estes valores para as outras pessoas, como ensina o Evangelho, sua regra de fé e prática. Mas quando outra pessoa afirma e reafirma uma postura ou identidade fora dos padrões morais do cristianismo ocidental é taxado como fora dos padrões de Deus e infiéis.

Esta postura não é diferente da do catolicismo medieval que afirmava: Extra Ecclesiam nulla salus [fora da igreja não há salvação], os evangélicos (leigos e pastores) têm reproduzido isso muito bem, e quem conhece os livros teológicos de Rubem Alves saberá muito do que estou falando. Portanto, a crítica está sobre os evangélicos, porque são eles que estão gritando contra os direitos dos corpos alheios. Se eles são contra a prática homoafetiva, então não tenham práticas homossexuais, mas não queiram propor o padrão moral individual sobre outras pessoas que, muitas vezes, não professam a mesma fé.

Dizer que é contra a prática sexual de outra pessoa, no caso, dos gays é tão ilógico e irracional, quanto seria se eles dissessem que os evangélicos não pudessem se casar, ou ter filhos, pois não compete a ninguém ditar o que é certo ou errado para a vida particular das outras pessoas. O problema dos pastores e padres é que eles se acham “pais”, “donos”, “senhores” da vida alheia e, com isso, determinam, ensinam o que é certo e errado, sob pena e punição, e jogam tudo isso nas costas de Deus, para legitimar seus próprios preconceitos.

Não podemos fechar os olhos para o horror que tem acontecido e que está explícito para quem quiser ver. Se o caso deste jovem fosse isolado toda essa discussão seria desconsiderada, mas bem sabemos que não é! Há inúmeros relatos de pessoas que rompem com suas famílias por causa de posturas semelhantes, outras pessoas vivem sob a pressão da suposta “cura gay” e tantos outros casos de opressão e até mesmo autoflagelo.

Ocorre que a cosmovisão evangélica é, em sua grande maioria, maniqueísta e reproduz tenazmente a frase: “se não é por nós é contra nós” e por ter a compreensão de que a homossexualidade é pecado, logo associa ao Diabo e ao desvio dos planos de Deus. Qual é o resultado desta conta metafísica? Portanto, associar a homossexualidade ao mal é mais do que comum! Quantos e quantos casos de “exorcismos”, “cura interior”, “aconselhamento pastoral para deixar de ser gay”, “indução a uma vida de eunuco” e “quebra de maldição” são direcionados para os homoafetivos.

O caso Malafaia/Feliciano tem sido um estopim a essa postura que estava ocultada e vivenciada no âmbito privado, mas que agora toma o espaço público. Como já disse: é obvio que há cristãos coerentes, sérios e respeitosos e que sabem seus limites quanto aos direitos daqueles que são diferentes. Mas a atualidade tem demonstrado uma tendência evangélica, e é exatamente esta quem tem sido a criticada – e com muita razão – e deverá ser combatida, pois senão voltaremos aos tempos de obscurantismos em tempos de sociedade laica, isto é, sem uma religião única e o oficial, mas ao mesmo tempo, resguardando a pluralidade e não somente religiosa.

O problema em si não é a religião evangélica propriamente dita, mas é a contradição que há no discurso hegemônico em relação aos princípios da própria religião. O direito de ser contra a homoafetividade ou qualquer prática de âmbito privado se encerra em seu próprio corpo e em sua própria vida. Nem mesmo há direito sobre os corpos dos filhos, caso eles/as sejam gays, cada um tem que dar conta de si e ponto.

O que os homossexuais querem é simplesmente respeito e liberdade sobre eles mesmos. A suposta “ditadura-gay” é um terrorismo ideológico que religiosos mal intencionados têm disseminado sobre uma massa desinformada e que absorve tais ideias como esponjas. Se os evangélicos e católicos querem ser testemunhas fieis de seu mestre, sejam como ele foi: inclusivo. E lute contra a religião/religiosidade que promove o medo, a perseguição e a morte, como ele fez em sua época. Quem é o algoz e quem é a vítima? A resposta depende de quem executa a perseguição e de quem é perseguido e por quais motivos.

 

Edson Elias

Inquieto, curioso e em processo constante de desconstrução e reconstrução. Vivo a contradição do humanismo cético e a religiosidade por meio da racionalidade. Procuro compreender e refletir sobre a realidade social e política para melhor atuar e desvelar os falseamentos, contradições e assimetrias. Refletir criticamente é uma subversão, pois tem a capacidade de questionar a ordem estabelecida das coisas que tendem a ocultar as relações de poder, controle e dominação.

Doutorando em Ciências Sociais (UNESP-Marília); Mestre e Graduado em Ciências Sociais (UEL-Londrina); Professor na área de Sociologia e pesquisador na área de Sociologia da Religião.


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