“Ideologia de gênero”, não. Questão de Gênero!

É cada vez mais corriqueiro encontrarmos o neologismo “ideologia de gênero” nas redes sociais, principalmente de pessoas vinculadas à religião cristã (católicas/evangélicas), e com isso não estou generalizando que TODOS/AS os cristãos sejam reprodutores deste neoconservadorismo, mas que uma grande maioria, senão todos, que grita aos quatro cantos “ideologia de gênero”, tem esta vinculação religiosa. Mas o termo tem se popularizado e tem sido reverberado também por jornalistas e, por sua vez, se torna senso comum na chamada “opinião pública” como se fosse um conceito correto.

Foto: Internet

Esta fórmula tem uma pretensão muito explícita: deslegitimar, criticar, desqualificar, reduzir, negar a diversidade de gênero. Ao dizerem que é uma “ideologia” estão afirmando que as relações homoafetivas são construções discursivas que têm o poder de *transformar* pessoas ditas *normais* (heterossexual) em pessoas *anormais* (homossexual). E por isso, querem negar a todo custo que os temas envolvendo a diversidade sexual da humanidade sejam abordadas nas escolas, com medo de que esta discussão seja um “mecanismo ideológico” de *transformação* de seus filhos. Assim, é melhor silenciar do que discutir, pois senão “pode *estimular* as crianças à homossexualidade*…”.

Em Londrina, ouvi pastores evangélicos dizerem que amam as pessoas homossexuais, que não têm preconceitos e que ensinam isso em suas igrejas. Inclusive que possuem grupos de pessoas para dar apoio e orientação aos homossexuais que querem frequentar a igreja. Contudo, entre tantas coisas ditas em um sermão de domingo, o pregador com bastante ênfase diz: “Satanás está agindo e seu alvo é a família! Precisamos cuidar de nossa família, precisamos cuidar de nossos filhos! Esta ideologia de gênero que estão pregando por aí é um instrumento de Satanás para acabar com as famílias!”. Ou seja, se aqueles que lutam pelos direitos individuais, civis e o direito de ser o que quiser e ser o que se é são identificados com a tal “ideologia de gênero”, e essa ideologia seria instrumento de Satanás, logo, os próprios homossexuais seriam esse instrumento do Diabo. É um discurso muito sutil, mas que tem efeitos devastadores, destruidores, exterminadores! Basta lembrar que o extermínio dos judeus pelos nazistas foi iniciado com este componente fundamental: O discurso de desqualificação, de demonização e de culpabilização.

A Sociologia utiliza o termo “questão” como um qualificativo interpretativo de análise. Ou seja, podemos falar em “Questão Social” devido às problemáticas envolvendo pobreza, miséria, desigualdade, assimetrias de poder político nas sociedades capitalistas. Uma questão diz respeito não ao âmbito individual, mas a uma coletividade como já nos ensinou Charles Wright Mills.

Assim, devemos falar em Questão de Gênero, não em “ideologia de Gênero”, porque a luta LGBTQ não tem a pretensão de transformar* ninguém, mas apenas querer o direito de viver, e viver como quiserem, e viver como são. Simples assim. Não querem ser mortos por causa de sua sexualidade. Não querem sofrer preconceito por causa de seus amores, ou por causa do preconceito que habita no outro (alter).

Cinco pessoas aparecem no vídeo que registrou a travesti Dandara dos Santos sendo agredida (Foto: Reprodução/Youtube)

Dito isto, é urgente que se discuta nas escolas – no nível Fundamental e Médio – e em todos os ambientes a diversidade sexual, a questão de gênero, a multiplicidade humana, para que possamos construir gerações menos preconceituosas, mais humanas. Ensinar sobre diversidade humana (sexual, racial, étnica etc.) é ensinar que ninguém deve morrer por causa da cor de sua pele, da forma que vive a sexualidade, de onde nasceu. Ensinar sobre as Questões de gênero nas escolas é o caminho para se evitar o extermínio que Dandara, e tantas outras, sofreram e sofrem cotidianamente.


Edson Elias

Doutorando em Ciências Sociais (UNESP-Marília); Mestre e Graduado em Ciências Sociais (UEL-Londrina); Pesquisador e Professor na área de Sociologia.


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