Sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro

A notícia que mais tem sido divulgada nesses últimos dias é a famigerada Intervenção Federal/Militar no Rio de Janeiro. A justificativa é de que o Estado do Rio de Janeiro está fora de controle e o Estado brasileiro precisou agir para “restabelecer a ordem”. A argumentação principal é a de que o Governo está preocupado com as “pessoas de bem” e que o estado paralelo do crime nos morros do Rio precisa ser desmontado.

Alguns cientistas políticos afirmam que esta intervenção está sob um cálculo político muito preciso, uma vez que a Reforma da Previdência não seria aprovada na Câmara dos deputados. Então, Michel Temer armou esse circo, decretando intervenção, para que o foco da população e da mídia não reverberasse sua derrota, sendo nada mais que uma cortina de fumaça. Além disso, o uso de militares contra o tráfico responde a um apelo social que tem aumentado nos últimos anos a partir do recrudescimento da intolerância e do ódio. Lembremos que nas manifestações a favor do impeachment muitos pediam “intervenção militar”, dessa forma, a ação de Temer pode ser uma última tentativa de diminuir sua rejeição.

Foto: Internet

O problema nisso tudo é que as pessoas pobres das favelas do Rio de Janeiro sofrerão as agruras dessa intervenção, tendo suas casas e direitos violados pelo aparato repressor do Estado, e o problema maior não será resolvido. Pode até ser remediado temporariamente, mas não resolvido, pois é o próprio Estado o causador deste caos.

É verdade que a situação no Rio de Janeiro é caótica, desesperadora e muito problemática. Mas não é com intervenção militar que esse problema será resolvido. O que já foi gasto com aparato militar poderia ter sido investido em ações sociais, com resultados muito melhores. Portanto, o Rio de Janeiro, como também São Paulo e outros estados que sofrem com o tráfico e a violência urbana, necessita de uma Intervenção Social, Educacional, Investimento Público em esporte, lazer e políticas de emprego e renda para diminuir a desigualdade social e política. Sim, necessita de uma grande transformação!

A falência do Estado na proteção do menor e na ação social, da política de segurança e das penitenciárias brasileiras e do Judiciário, que demora anos para julgar um caso, são as causas principais desta situação.

Para justificar o que foi dito até agora e colocar argumentos mais precisos, advindo de pesquisas consistentes, assistam a estas entrevistas:

A socióloga Julita Lemgruber, especialista em segurança pública, aponta os problemas no sistema penitenciário brasileiro, quando houve a rebelião no Rio Grande do Norte em 2017. Segundo ela, mais da metade dos presos provisórios, quando julgados, recebem uma pena diferente da pena de prisão, ou seja, estão presos indevidamente. Resultado: cooptação pelas facções internas. Ela apresenta mais dados estarrecedores.

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A cientista política Jaqueline Muniz, profa. Da UFF, fala sobre teatralização operacional da polícia do Rio de Janeiro que produz pouco efeito no cotidiano. O dia-a-dia do policiamento foi substituído pelas grandes operações que dão retorno midiático e político, mas nenhum retorno ao problema do crime organizado. Para a professora, a intervenção militar terá efeito de “espanta-baratas”.

Para compreendermos que todo esse processo é muito mais complexo do que prender e matar “bandido na favela”, basta observar como as armas de grosso calibre chegam às mãos do crime organizado.

Segue uma sequência de reportagens sobre o tráfico de armas por meio de policiais e agentes do Exército. Prática já denunciada pela pesquisadora de Alba Zaluar na década de 1980, que deu origem ao filme Cidade de Deus. Com isso, não se pretende acusar toda a corporação, mas não podemos fechar os olhos para esse fato.

Sargento do Exército foi preso com armas e drogas destinado ao Rio de Janeiro:

Militares do Exército foram presos com mais de 300 kg de drogas na região de Arapongas-Pr:

5 policiais militares foram presos por tráfico de armas apreendidas em operações em Minas Gerais:

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Oficiais da Marinha foram presos com armas e muita munição que eram destinadas ao Rio de Janeiro:

Policial do Estado do Rio de Janeiro é preso por suspeita de tráfico internacional de armas:

Acredito que esses dados possam orientar uma reflexão mais crítica sobre esse tema, que é urgente em nossa sociedade. Mas, de toda forma, é apenas uma porta de entrada para uma vasta pesquisa que deve ser feita sobre o problema da segurança pública, intervenção militar, desigualdade social e corrupção em todas as instâncias de poder.

Edson Elias

Inquieto, curioso e em processo constante de desconstrução e reconstrução. Vivo a contradição do humanismo cético e a religiosidade por meio da racionalidade. Procuro compreender e refletir sobre a realidade social e política para melhor atuar e desvelar os falseamentos, contradições e assimetrias. Refletir criticamente é uma subversão, pois tem a capacidade de questionar a ordem estabelecida das coisas que tendem a ocultar as relações de poder, controle e dominação.

Doutorando em Ciências Sociais (UNESP-Marília); Mestre e Graduado em Ciências Sociais (UEL-Londrina); Professor na área de Sociologia e pesquisador na área de Sociologia da Religião.


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