Lua Negra

Hoje quero falar sobre a Lua. Não a Lua vermelha, tão fotografada semanas atrás, nem a Lua de prata, já cantada em prosa e verso. Quero falar da Lua negra. Tão magrinha, cabelos longos, negros, lindos e cacheados. Foi na sala de aula da UEL que a vi pela primeira vez. Eu, branca, já havia frequentado aqueles bancos outras vezes. Na primeira graduação, na especialização, no mestrado. Agora, uma segunda graduação. Ela, negra, não sei o que sentia por estar ali. A oportunidade pelas cotas. Eu, branca, que só comecei a trabalhar na vida já formada, como jornalista. Ela, aos 30 e poucos, me conta que na adolescência teve que sair da escola para trabalhar. Me responde que se chama Luciana. Digo que é o mesmo nome da minha irmã. E penso na minha irmã, branca, loira, olhos verdes. Vejo Lua, negra, olhos tão expressivos. No decorrer das aulas, nos aproximamos. Vou à casa de sua mãe, em Cambé. Vou a festas na república de Lua. Muitas vezes lhe dou carona na volta da faculdade. Algumas vezes, Lua aparece em casa antes da aula pra pegar carona. Come tão pouco, Lua. Parece um passarinho.

No curso, revela-se artista. De suas mãos hábeis, saem linhas que desenham papéis, paredes, o que aparece pela frente. Lua tão vivaz e inteligente. Nas disciplinas teóricas, a dificuldade de quem não teve acesso a livros, de quem saiu cedo da escola para trabalhar. O que para mim, branca, veio fácil, nunca chegou à Lua. Difícil ver Lua e não pensar nas diferenças em nossas vidas, marcadas principalmente pela cor da pele.

Aos poucos, Lua foi se distanciando das aulas. Procurou outras turmas. Encantou-se com as artes cênicas. Seu corpo era o suporte para a arte. Lua tão livre, tão solta. Tão atrevida. De repente, o surto. Fui visitá-la com outra colega. Lua estranha, distante. Quieta. Sem dizer palavra, nos mostrou um vídeo. Ela maneja hastes longas de metal. Tão linda aquela dança. Tão potente. Aquela era Lua. Depois, voltou para a UEL. Me parecia bem. Alguns encontros rápidos. E depois, tal qual Lua Nova, desaparecia. Numa manhã chuvosa de domingo, vejo Lua numa feira perto de casa. Contente, vou até ela, que carrega um guarda-chuva. A princípio, diz meu nome e sobrenome. Quando vou engatar conversa, ela fala que não me conhece. Não levo a sério e tento brincar com ela. Ríspida, começa a gritar que não me conhece e pede para que eu pare de incomodá-la.

Eu me afasto, sem entender se é uma performance ou se aquilo é real. Houve ainda mais um encontro. Estou de carro e ela está aguardando para atravessar a rua. Paro para cumprimentá-la. Ela, mais uma vez, me ignora. Eu ainda tento puxar conversa. Em vão.

Meses depois, amigos desconfiam de que Lua está morando debaixo de um viaduto perto da UEL. Descobrem que é ela por causa dos desenhos. Ainda tentamos pensar em formas de ajudá-la. Alguém entra em contato com o serviço de assistência social da prefeitura. O tempo passa. E então vem a notícia na TV. O corpo de uma mulher encontrado no lago. Já está morta há umas semanas. Vítima de violência. Alguns alunos querem fazer uma exposição com desenhos e pinturas de Lua. Vamos à casa da mãe dela. Dona Cleusa. Triste. Ela conta que a Luciana levou  tudo embora. Vejo nela algumas expressões da Lua. Uma história que ainda não terminou. Uma morte que precisa ser investigada. Penso na Lua que nunca mais vou ver. Na vida tão rápida, tão doída, tão sem possibilidades. E me sinto impotente. E penso que, para mim, se eu tivesse desistido de tudo, eu ainda teria muitas possibilidades antes de ir pra baixo de um viaduto. Penso na Lua tão corajosa e, ao mesmo tempo, tão vulnerável, tão sem saída.

Foto: Reprodução Facebook

Foto: Reprodução Facebook

Foto: Reprodução Facebook

Redação Tem

Carina Paccola

Tenho 51 anos, sou jornalista, com mestrado em ciências sociais. Recentemente, me formei também em artes visuais. Faço mosaico e comecei a pintar. Sou mãe de um rapaz de 22 anos.


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