- Jornalismo
- 27 de abril de 2026
Identidade
Por Talytah Costa Guarche
Parto de uma ampliação feita por André Baniwa, fiz questão de trazê-la ao meu encontro para falar de uma identidade coletiva, de um bem-viver que extrapola um único título, e que exponde a conexão de pertencimento que faz de nossa nação única: Sou mulher, londrinense, de alma santista, paranaense, do sul do país, sou brasileira em sua completude, mistura de colonizadores e colonizados, meu sangue tem a contradição que luta pela existência, meu corpo reflete em cada poro meu senso de pertencimento. Dos churrascos de sábado à feijoada de domingo, da farinha de mandioca em cima do arroz, da banana frita com comida. Com roupas coloridas me forjo, meu teto é piaçava, minha rua tem nome de português, que faz cruzamento com tupi, minha escola exaltava educação europeia, com crianças mestiças sentadas que ignoravam sua cor e olhos puxados, e diziam aos 4 ventos seus valores esbranquiçados. A lingua é o português, mas o português do Brasil, com traços de tupi e nagô. A religião é a cristã, com mandingas africanas e danças dos encantados. Do silenciamento aos esconderijos, o Brasil se formou. Formação nada pacífica, como muito pensam, as disputas de discurso, vindo para uma terra colonizada, fez com que se criassem jeitos “certos” de existir, essa epistemi impediu a liberdade criativa de mundos diversos, trouxe preconceito e racismo, valorou um, excluiu outro, dividiu profissões e oportunidades como uma mãe separando os feijões para cozer, um punhado vai pra panela, o outro é separado para descarte. Muitas línguas se perderam, muitos cantos engasgados. Minha bisavó já não sabia sua língua materna, ou fingia não saber, língua de uma avó pega à laço em Paranaguá para servir de esposa a um português, minha avó se diz descendente de portugueses, mas seus rituais, olhos puxados, pele dourada denunciam algo que as palavras tentam esconder. Escondem mas deixam rastros, como as memórias de contações, diz que minha bisa morava em uma ilha perto dali — pesquisei, Ilha da Cotinga, não foi difícil saber, os Ava Guarani, meu coração dispara, tanto passado escondido. Mas, mesmo no silêncio, ela se mostra nas gerações. Ainda há a tentativa de resguardo na menstruação, não há cestaria para transmissão dos saberes, mas elas acontecem ao pentearmos os cabelos umas das outras, ao nos reunirmos todos ao sol para limpar espiga de milho, que virará pamonha ao fim da tarde, elas se reenergizam nos banhos de rio, nas amizades com os pássaros. Resistência. Resiliência. Esperança. Hoje estou fora do Brasil, temporariamente, nesse momento sentada em uma casa climatizada internamente, pois há neve lá fora; neve em uma cidade sem cheiros, sem pássaros coloridos, sem o tempero e hábitos que me fazem ser quem sou. Me sinto deslocada, desamparada, medrosa, saudosa, contando os dias, para sentir novamente minha vida território retornando ao meu corpo carne, conectar meu coletivo às minhas células novamente, fortalecer. Resistir. Esse é o legado, a mensagem dos povos que formam o Brasil, resistam, se fortaleçam, façam do território seus corpos, sua imagem, para nos conhecermos como nação, como povo brasileiro, com suas marcas, mas com seu futuro. Somos indígenas, negros, metiços, caboclos, pardos, somos brasileiros.
Talytah Costa Guarche – Professora, Doutoranda em Saúde Coletiva, Pesquisadora convidada Universidade de Malmö, Suécia.
Artigo de Opinião