Tratamento precoce contra covid ‘não funciona’, diz médico de Londrina

Cerca de 80% a 90% das pessoas contaminadas são assintomáticas ou têm a doença de forma leve. Para o especialista, isso cria a falsa expectativa de que foi pelo remédio, mas, são pessoas que já não teriam mesmo complicações.

Foto: Reprodução

Depois de mais de um ano de pandemia, ainda tem assuntos que dividem opiniões. Um deles é o chamado “tratamento precoce” — que agora também tem associado a ele o “kit covid” — que, mesmo com as comprovações científicas de que não é eficiente contra a covid-19, continua ganhando adeptos.

O TEM conversou com o médico sanitarista e professor do curso de medicina da PUC Londrina, Gilberto Martin, para saber quais os riscos que as pessoas correm por fazerem uso de medicamentos que não são aprovados pela comunidade científica.

O “tratamento precoce” contra a covid-19 funciona?

Não, não funciona. Até agora, não há nenhum resultado científico, considerando todos os critérios internacionais que são exigidos, que comprove a eficácia da medicação. Sobre esse assunto, eu sempre levanto alguns pontos. Primeiro, se esse tratamento fosse realmente eficiente, por que ele estaria sendo ignorado pelo resto do mundo? O Brasil é um dos poucos do mundo que ainda insiste nisso, os outros países já descartaram essa possibilidade. Se fosse algo efetivo de verdade, seria a solução de um problema mundial. Todos estariam atrás disso. Outra questão é que entre 80% e 90% das pessoas contaminadas serão assintomáticas ou terão a doença de forma leve a moderada. Sendo assim, na minha opinião, cria-se uma falsa expectativa de que foi pelo remédio, mas, na maioria das vezes, é uma pessoa que já não teria mesmo complicações. Além do mais, esse fator não tem sido levado em conta nas internações, então não sabemos com certeza quantas pessoas que usaram o “kit covid” foram hospitalizadas.

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“Primeiro, se esse tratamento fosse realmente eficiente, por que ele estaria sendo ignorado pelo resto do mundo? […] O que mais queríamos era ter um remédio preventivo, mas ainda não há”.

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Outro grande problema desse tipo de tratamento é que, ao se sentirem mais protegidas, a reação imediata das pessoas é diminuir a preocupação com os cuidados que verdadeiramente funcionam, como isolamento e distanciamento sociais, aumentando a circulação e contaminação do vírus. Por fim, já observamos que a indicação dos remédios começou a prejudicar o estoque dos mesmos, colocando em risco a saúde de quem realmente precisa dessa medicação, como pacientes com malária ou doenças autoimunes. O que mais queríamos era ter um remédio preventivo, mas ainda não há.

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“Entre 80% e 90% das pessoas contaminadas serão assintomáticas ou terão a doença de forma leve a moderada. Sendo assim, na minha opinião, cria-se uma falsa expectativa de que foi pelo remédio, mas, na maioria das vezes, é uma pessoa que já não teria mesmo complicações”.

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Quais os riscos para a saúde de quem usa essa medicação sem necessidade?

Não podemos esquecer que todo medicamento tem efeito colateral, por menor que seja. No caso do chamado “kit covid”, tem sido observadas alterações cardíacas (arritmia) e complicações hepáticas (problemas no fígado). Um risco desnecessário de ser corrido em um momento como esse. Vale lembrar que o médico tem autonomia para prescrever o remédio que achar melhor ao seu paciente, porém, nesse caso, é preciso que a pessoa assine um termo que confirma estar ciente dos riscos que corre.

É lamentável termos chegado a esse ponto. Todo o dinheiro que foi gasto para a produção desses medicamentos, poderia ter sido usado, lá atrás, para testar a população em massa. Com certeza, hoje, estaríamos em uma situação bem melhor.

Sendo assim, qual a verdadeira solução para a covid-19?

Sem dúvidas, é a vacina! Porém, infelizmente, nós estamos em desvantagem nessa corrida contra o vírus. Hoje, precisávamos ter, no mínimo, 50% da população vacinada para interromper a circulação do vírus. Porém, a lentidão com a qual as doses vêm sendo aplicadas no Brasil pode criar variantes que sejam resistentes a vacina. Precisaríamos estar sempre um passo a frente do vírus.

O senhor acredita que houve uma interferência política na forma como a pandemia foi administrada no Brasil?

Do ponto de vista gerencial, eu avalio que a análise da realidade foi errada por ter minimizado a doença. A partir disso, muitas medidas ineficazes foram tomadas — negar, simplificar, apontar um tratamento que possibilitaria a continuidade das atividades econômicas, demora na compra de vacinas etc. Faltou enfrentar os problemas econômicos com medidas eficientes, criar uma série de medidas que atendessem ao setor assim como elaboramos um protocolo de condutas que combatem a doença. Ao invés de protestos, o setor econômico poderia organizar um comitê de enfrentamento que elencaria as necessidades e iria em busca de resolvê-las.

Fiama Heloisa - Redação Tem



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