A saúde de Londrina e o prefeito médico

“Saúde é um direito que precisa e deve ser respeitado”
Candidato Marcelo Belinati.

Londrina está doente e continua com atendimento precário…

Segundo reportagem de Bruno Carraro (CBN), nesta terça-feira, 26, a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Jardim Sabará e a UBS (Unidade Básica de Saúde) do Jardim Leonor estavam lotadas, com pacientes esperando atendimento por mais de 6h. A Secretaria de Saúde justifica a superlotação por meio do argumento: “apenas um dia atípico”.

O problema que este “dia atípico” é recorrente em Londrina já há vários anos. Somente em 2018 a Tarobá News registrou reclamações em 24 de janeiro (UPA Jardim do Sol), 06 (UPA Sabará) e 22 de março (UPA Jardim do Sol e Sabará), 25 de junho (UPA Sabará e Pronto Atendimento Infantil), todos com reclamações pela demora no atendimento, chegando a 9h de espera. Na UBS da Vila Ricardo (zona leste) não havia nenhum médico. Ainda segundo reportagem da Tarobá, “Na Santa Casa de Londrina, quem procura atendimento aos finais de semana fica surpreso: de acordo com uma recepcionista que não quis se identificar, da madrugada de sábado até a manhã de segunda-feira não há médico plantonista no pronto atendimento – os pacientes são encaminhados ao Mater Dei, que acumula pacientes e não demonstra capacidade para atender a demanda” (25/06/18).

O problema na saúde de Londrina não é falta de recursos financeiros, pois o orçamento beira os 600 Milhões de Reais, conforme o próprio prefeito, ainda candidato, havia anunciado em 2016. A saúde londrinense só não está pior porque tem uma forte tradição de participação popular e de trabalhadores nas instâncias populares de saúde, organizados no Conselho de Saúde, atuando diretamente nas Conferências, na elaboração de planos de ação, na formulação de políticas de saúde e fiscalização do executivo.

Muito interessante e contraditório é que o prefeito de Londrina, Marcelo Belinati que também é médico, já anunciava em campanha, em 2016, qual era o problema da saúde em Londrina. Nessa ocasião, ele criticava a administração anterior dizendo que faltavam médicos e remédios nas UBS. Durante entrevista de campanha para a Massa News em setembro de 2016, afirmou Marcelo Belinati que “quem administra este orçamento (587 Milhões de Reais) é a prefeitura, faltam médicos nos postos, faltam remédios. Se tem tudo isso de dinheiro e falta tudo na nossa rede pública, o que está acontecendo? Alguma falha tem! Na minha opinião é eficiência de gestão. Temos que administrar esses recursos adequadamente, estruturar as nossas UBS’s com médicos e remédios, valorizar o profissional da saúde […]”.

Como sempre, e sempre, o problema no setor público está na gestão, identificado pelo candidato em 2016 e perpetuado pelo prefeito nos dois anos de mandato. E aqui temos que questionar: Prefeito Marcelo Belinati, onde está o seu compromisso com a saúde de Londrina? Pois nesta mesma entrevista, o senhor, como bom Belinati que é, introduziu sua resposta da seguinte maneira: “Londrina, eu quero assumir um compromisso com a cidade, nós vamos resolver sim! Nós vamos melhorar [os problemas da saúde]”.

Como candidato, também prometeu ampliação do Programa Saúde da Família e do SAMU. Ocorre que o programa Estratégia Saúde da Família – ESF (o antigo Médico da Família e posteriormente o Programa Saúde da Família), que era a esperança do povo brasileiro na perspectiva da assistência preventiva, hoje encontra-se absolutamente sucateado e abandonado pela Secretaria de Saúde. As equipes da ESF estão incompletas e desestruturadas, sendo elas fundamentais no processo de prevenção das doenças. Ao invés de obedecerem a orientação do Ministério da Saúde e fazerem a assistência preventiva em cada domicílio, cumprem outro papel atendendo a demanda espontânea curativista dentro da UBS, já que a Secretaria não tem médicos suficientes para o atendimento domiciliar e no território da UBS. E assim, mais uma vez o “compromisso” do prefeito não passa de promessas de campanha.

E onde estão os vereadores que deveriam fiscalizar e cobrar as ações do executivo? Muito deles, obcecados por pautas únicas, deixam a desejar na criação de projetos eficientes e necessários para a cidade. Deixam a desejar na cobrança daquilo que já está estatuído, mas no que diz respeito ao moralismo e ao conservadorismo são os primeiros a se manifestarem. Assim, sofremos com um prefeito que falha em sua gestão e que conta com uma Câmara de vereadores ineptos.

Sim, Marcelo, seu discurso é correto ao afirmar que “Saúde é um direito que precisa e deve ser respeitado”, portanto respeite o direito dos londrinenses!

O Conselho Municipal de Saúde também precisa se mobilizar e exigir que a Secretaria de Saúde cumpra suas funções com eficiência e desempenhe uma gestão resoluta. Precisamos nos mobilizar como sociedade organizada e cônscias de seus direitos e cobrar o prefeito Marcelo Belinati, os vereadores e a Secretaria de Saúde para que o município ofereça serviços e atendimento básico, secundário e terciário de boa qualidade, que haja fiscalização geral e não apenas nestas unidades de pronto atendimento.

Edson Elias

Inquieto, curioso e em processo constante de desconstrução e reconstrução. Vivo a contradição do humanismo cético e a religiosidade por meio da racionalidade. Procuro compreender e refletir sobre a realidade social e política para melhor atuar e desvelar os falseamentos, contradições e assimetrias. Refletir criticamente é uma subversão, pois tem a capacidade de questionar a ordem estabelecida das coisas que tendem a ocultar as relações de poder, controle e dominação.

Doutorando em Ciências Sociais (UNESP-Marília); Mestre e Graduado em Ciências Sociais (UEL-Londrina); Professor na área de Sociologia e pesquisador na área de Sociologia da Religião.


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