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Cultura ballroom ocupa Teatro Ouro Verde pela primeira vez

Movimento político e artístico protagonizado por pessoas LGBT+, negras e latinas.

Imagem: Divulgação

Neste sábado (28), a partir das 16h, o Cine Teatro Ouro Verde vive mais um momento histórico, a “Kiki Ball Encruzilhadas do Tempo”. O evento integra a programação do 3º Festival das Diversidades e é organizado pelo Coletivo Ballroom Londrina, o programa de extensão da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Práxis Itinerante e a produtora cultural Kapanga Criativa.

O evento é gratuito, mas é necessário retirar convite antecipado via Sympla, clicando aqui

Em 74 anos desde a fundação do espaço, é a primeira vez que a cultura balllroom ocupa o Ouro Verde. A cultura ballroom é um movimento político e artístico criado na década de 1970, nos Estados Unidos, protagonizado por pessoas LGBTQIAPN+, negras e latinas como resistência ao racismo, LGBTfobia, entre outras formas de exclusão.

Organizado em “houses” (casas) que funcionam como famílias escolhidas, o movimento celebra identidades e corpos marginalizados por meio de “balls”, que são bailes com competições de dança (voguing), performance, moda, entre outras.

Naan Curotto Alves, bacharel em Artes Cênicas pela UEL, integrante do Coletivo Ballroom Londrina, explica que o diálogo com as “encruzilhadas” busca outros modos de imaginar o tempo sem ser apenas linear, mas de maneira espiralar.

A referência parte da obra “Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela”, da dramaturga Leda Maria Martins. “Encontrando na encruzilhada o lugar onde a ballroom acontece. As cores escolhidas para a ball são verde, marrom e branco, cores do orixá do tempo: Iroko e também as cores do Teatro Ouro Verde”, conta.

“Queremos relembrar trajetórias que ajudaram a construir espaços para que nossos corpos marginalizados possam celebrar dentro de um espaço tão histórico quanto o Ouro Verde. Queremos celebrar a memória dos que já foram e os que continuam aqui fomentando diferentes eixos da cultura”, acrescenta Tiago Daniel, ator, produtor cultural e diretor-geral do 3º Festival das Diversidades.

O Coletivo Ballroom Londrina surgiu em 2022 e desde então já esteve em diferentes vilas culturais da cidade como a Usina Cultural, Alma Brasil, Canto do Marl, Divisão de Artes Cênicas da UEL, entre outros espaços.

Para Naan estes passos foram fundamentais para caminhada até o Ouro Verde. “Cada um deles teve uma importância muito grande e foi abrindo espaço para termos reconhecimento na cidade. O Ouro Verde será mais um passo nessa caminhada e ainda um momento em destaque, que será de muita celebração e festa, com pessoas racializadas, negras, indígenas, pessoas trans, travestis, não binárias, todos LGBTQIAPN+ em cima do palco e espalhados pela plateia”, afirma.

Tiago salienta que um dos principais objetivos do Festival das Diversidades é ocupar diferentes locais com culturas marginalizadas. Ele lembra das duas edições da Batalha Coroa de Ouro, que em 2024 e 2025, levaram a cultura hip-hop para o Teatro também pela primeira vez, ou seja, abrindo caminhos para a valorização da cena local e procurando desmistificar preconceitos acerca do movimento.

“Imaginar o Ouro Verde ocupado por corpos trans e travestis parecia algo distante, tendo em vista o espaço tradicionalmente destinado para ações marginalizadas em Londrina.

Esperamos que todo esse trabalho não encerre com o fim dessa edição. Queremos que os festivais tradicionais de Londrina também pensem nesses corpos e ocupem suas programações com uma política de diversidade que, de fato, se preocupa com nossa existência”, indica.

Ao todo, serão disputadas 12 categorias, sendo que cada uma delas busca honrar a trajetória de homenageados do 3º Festival das Diversidades. Braguinha, Malu Jimenez, Kenedy Piau, Dhi Ferreira, Edna Aguiar, Beatriz Silva, Fran Camilo, Thei Guedes, Willian Santiago (in memorian), Oscar Nascimento (in memoriam), Melk (in memoriam), Yá Mukumby (in memoriam) serão nomes ecoados no tradicional espaço da cultura londrinense (saiba mais aqui).

“Algo que acho fantástico nas balls é o caráter educativo. As categorias, a música, o corpo, ‘o 10’, que é a nota máxima, e o ‘chop’, que elimina uma pessoa da categoria, são capazes de ensinar e construir novas perspectivas para esses corpos”, sinaliza Tiago.

Conhecer, pertencer e transformar

Para Naan, o conhecimento sobre a cultura ballroom ainda precisa “furar a bolha”, atingindo principalmente pessoas que não integram a cena.

Os esforços do Coletivo têm sido direcionados para aprofundar o diálogo com a população, desconstruindo estigmas e reforçando o caráter político do movimento, que “não se resume à dança”.

“Sempre que chegamos em algum lugar em que não conhecem a ballroom, existe um estranhamento, desde o nome e as expressões do vocabulário, que por serem em inglês, muitas pessoas acabam não entendendo, então, estamos sempre fazendo tentativas de entender qual comunicação funciona melhor, quais palavras utilizar e o que pontuar para que entendam principalmente a base da cultura, que é essencialmente política”, avalia.

“Compreender o que é a comunidade e como atuam os coletivos que fazem parte dela, como as houses [casas], que não são ‘só um grupo de dança’, treinam, ensaiam, se apresentam, a dança está presente, mas não se resume a isso, house é casa, lar, família, espaço de acolhimento e cuidado, rede de apoio, um escape e refúgio para pessoas dissidentes que estão em vulnerabilidade”, pontua.

Para Tiago, a cultura ballroom é nova na cidade quando comparada a outras manifestações culturais. De acordo com ele, é necessário cada vez mais ampliar a participação da cena em circuitos culturais para que as pessoas possam ter contato com a potência artística e política que a cultura ballroom proporciona.

“Mais do que dança – o que por si só já é suficiente – as balls são espaços políticos de resistência e acolhimento LGBTQIAPN+. Nos treinos e na jogação, a cultura fala sobre autoestima e pertencimento através da dança. É sobre um protagonismo de corpos às margens que surge a partir das necessidades de pessoas negras, latinas e LGBTQIAPN+ em existir”, ressalta.

Para participar é necessário retirar ingresso gratuito através da plataforma Sympla (disponível aqui). Os lugares são limitados à capacidade do Teatro.

Quem desejar conhecer mais sobre a história da cultura Ballroom em Londrina, poderá visitar a exposição “Encruzilhadas Ballroom”, realizada por Fernanda Franz através do Trabalho de Conclusão de Curso em Artes Cênicas na UEL. A mostra ficará disponível durante todo o evento, no saguão do Ouro Verde.

O corpo de jurados será formado por nomes icônicos da cena, oriundos de diferentes regiões do país: Father Lion King Laffond (RJ), Luca Laffond (SP), Imperatriz Kyra Laffond (SP), Prince Dan Imperio (SP), Statement OA Godfather Marcos Imperio (SP), Majo 007 (PR), Gior Juicy Couture (PR), Princese Dark Ocean (PR), Mother Paty Aurora (PR).

“Cada pessoa que for somar vai ser essencial desde para caminhar até se for só para assistir vai fortalecer demais, para quem nunca foi e não sabe como funciona uma ball: é um espetáculo completo, deslumbrante e maravilhoso, e tudo que acontece numa ball só pode acontecer naquele dia, naquele instante, é improviso, jogo, performance”, acrescenta Naan.

O after será no Baile da Maudita #007 com Scof Savage, a partir das 22h no Espaço Elias. “Para toda a cena londrinense é um ball que está sendo muito esperada, tanto pelo Line, já que as pessoas que virão são referência estadual e nacional, e pelas categorias, estão todes se preparando para caminhar, treinando e escolhendo looks, o nível vai estar altíssimo”, garante Naan.

“Estamos muito animados. Essa vai ser a maior ball da região e estamos trazendo nomes muito importantes para a cultura no Brasil. Queremos que pessoas que não conheçam a cultura ou que talvez tenham visto algo de longe apareçam por lá. Queremos construir um novo capítulo para a cena em Londrina”, complementa Tiago.

Para ele, o chamamento é para discutir qual projeto de cidade deseja-se construir, trazendo mais visibilidade para as Londrinas que existem em Londrina.

“Precisamos da cena cultural unida, precisamos dos produtores, do público, dos coletivos, dos movimentos sociais juntos com essa iniciativa. Estamos num momento extremamente importante para mostrarmos a Londrina que precisamos. Um teatro

histórico lotado de pessoas clamando por cultura marginalizada é um passo fundamental para isso”, ele finaliza.

Redação Tem Londrina com Assessoria


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