Caso Néia: ‘ele anulou a vida dela’, diz irmã; família pede justiça

Família teme que por se tratar de tentativa de feminicídio, já que a vítima conseguiu sobreviver, diminua a pena. Porém, por causa do crime, Néia perdeu toda a autonomia.

Néia, com 33 anos, antes da tentativa de feminicídio; Néia hoje – Foto: Arquivo Pessoal

Uma mistura de satisfação, alívio e angústia. Assim a família de Cidnéia Aparecida Mariano da Costa, de 34 anos, define o sentimento sobre a notícia do julgamento do homem que tentou matá-la, Emerson Henrique de Souza. O ex-companheiro de Néia vai a júri popular na próxima semana, no dia quatro de fevereiro.

No momento, o maior temor dos familiares é que o fato de o caso ser tratado como tentativa de feminicídio, já que a vítima conseguiu sobreviver, cause uma grande redução na pena. “Nossa esperança é que a redução seja a menor possível e que os agravantes do caso ajudem nesse sentido. Nosso objetivo é sair do júri com a maior pena possível”, explica Silvana Mariano, irmã da vítima.

De fato, os agravantes do caso fazem toda a diferença nesse crime. Mesmo sem consumar o feminicídio, Emerson deixou um rastro de morte na vida de Néia. Afinal, a mulher ativa, independente e dinâmica, hoje está presa em uma cama, necessitando de cuidados 24 horas por dia, sem poder falar, andar, trabalhar ou abraçar algum de seus quatro filhos. Ainda que a morte física não tenha ocorrido, a vida de Néia foi interrompida. “É um feminicídio social. O objetivo dele de impedir que ela prosseguisse com a própria vida foi cumprido. No sentido social, ele anulou a vida dela”, aponta Silvana.

Para a família, que também teve a vida completamente impactada para suprir as demandas de uma pessoa acamada, a busca pela justiça penal conforta, mas não diminui a dor. “Seja qual for a pena, está longe de qualquer justiça real pelo impacto que o réu causou na vida da vítima e de toda nossa família”, desabafa a irmã.

Violência contra a mulher: punição, mas também reparação de danos

O caso de Néia levanta outra questão muito importante dentro do universo das políticas de combate à violência contra a mulher. Além de segurança física, essa vítima precisa de acolhimento e, inclusive, de segurança financeira. As vítimas precisam de políticas de reparação de danos, ou seja, que garantam as condições mínimas de sobrevivência digna para a mulher e os que dependem dela. Seja por parte do estado ou do agressor.

“Uma vítima sobrevivente, como é o caso da minha irmã, exige uma série de cuidados que são sequelas do que ela sofreu com o crime. Ela tem uma rotina de cuidado e tratamento muito intensa que precisa ser suprida. Por exemplo, como manter cuidadores 24 horas por dia? Ou pagamos, o que é muito caro, ou alguma mulher da família precisa abrir mão da própria vida para se dedicar aos cuidados que ela precisa. Os impactos são muito profundos”, comenta a irmã de Néia.

Ato por justiça para Néia

No dia do júri, próxima quinta-feira (04), a partir das 8h30, está marcado um ato pedindo “Justiça para Néia”. A organização é de mulheres que se engajam na luta pelo fim da violência contra mulher e desejam que a justiça seja cumprida em relação ao caso de Néia. O ato busca reforçar com o corpo de jurados a gravidade do crime e a necessidade de uma punição rígida.

O caso

O crime aconteceu em 08 de abril de 2019. Néia buscava há dias, amigavelmente, romper a relação com o então companheiro. Por não concordar com o fim do relacionamento, Emerson tentou matar Néia asfixiada. Achando que tinha conseguido cometer o crime, abandonou o corpo dela em uma estrada rural na Zona Norte de Londrina.

Ela foi encontrada ainda com vida e encaminhada ao hospital. Porém, devido à falta de oxigênio no cérebro decorrente da asfixia que sofreu, ela ficou com severas sequelas neurológicas. Hoje, Néia está tetraplégica, acamada, e sem poder falar.

O réu foi preso três semanas após o crime e continua detido.

Fiama Heloisa - Redação Tem



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