‘Bolsolão’: esquema secreto destina R$ 3 bilhões para o Centrão; entenda

MP pede ao TCU investigação sobre orçamento paralelo do presidente Jair Bolsonaro para abastecer o Centrão, ação foi apelidada de 'Bolsolão'.

Imagem: Fabio Pozzebom/Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro teria montado um esquema secreto com o intuito de abastecer políticos do Centrão. O caso, apelidado de ‘Bolsolão’, foi divulgado pelo jornal O Estado de São Paulo, trata-se de um orçamento paralelo de R$ 3 bilhões montado pelo mandatário para aumentar a base de apoio no Congresso.

No final do ano passado, em meio às eleições para a Câmara e para o Senado, o presidente Jair Bolsonaro deu aval e liberou R$ 3 bilhões em emendas parlamentares. Esses recursos foram usados para conseguir apoio aos candidatos governistas, e foram gastos em 101 ofícios, alguns deles com tratores e equipamentos agrícolas por preços até 259% mais caros que os valores fixados pelo governo.

A informação foi apurada pelo jornalista Breno Pires, do Estadão, que apresenta as notas gastas por deputados e senadores. O Ministério do Desenvolvimento Regional, comandado por Rogério Marinho, é responsável por receber as comprovações de como o dinheiro seria gasto.

A distribuição dos valores, de acordo com os documentos, não ocorreu de forma igualitária entre os parlamentares. O critério de escolha para receber foi apoiar o governo. Veja como foi gasto:

O senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), por exemplo, conseguiu R$ 277 milhões. Se fosse por meio da tradicional emenda parlamentar individual, que garante anualmente R$ 8 milhões a cada congressista, ele precisaria de 34 anos no Senado. Desse total, R$ 81 milhões foi destinado à Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), a estatal que controla, ao lado de outros políticos.

A atual ministra-chefe da Secretaria de Governo, Flávia Arruda (PL-DF), solicitou R$ 5 milhões também em favor da Codevasf.

O diretor-presidente da Codevasf é o engenheiro baiano Marcelo Moreira, ex-funcionário da Odebrecht, indicado em 2019 pelo deputado Elmar Nascimento, com respaldo do então ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, atualmente chefe da Casa Civil.

O Progressistas (PP), por sua vez, tem dois nomes na diretoria executiva da Codevasf. O primeiro é Luís Napoleão Casado Arnaud Neto. Homem da confiança de Arthur Lira, Arnaud Neto é diretor da Área de Gestão dos Empreendimentos de Irrigação. Já o diretor da Área de Revitalização de Bacias Hidrográficas é Davidson Tolentino de Almeida, ligado ao presidente do partido, senador Ciro Nogueira (PI), um dos mais ferrenhos defensores de Bolsonaro na CPI da Covid.

Outro caso curioso é o do deputado Lúcio Mosquini (MDB-RO), que recebeu do governo um trator no valor de R$ 359 mil, sendo que o valor fixado pela União para o modelo é de R$ 100 mil. No total, o deputado conseguiu R$ 8 milhões em emendas.

Além dele, os deputados do Solidariedade Ottaci Nascimento (RR) e Bosco Saraiva (AM) também gastaram com máquinas agrícolas. Ao todo, direcionaram R$ 4 milhões em maquinário para Padre Bernardo, em Goiás, fora do reduto eleitoral deles. Se considerarmos o valor fixado pelo governo, a compra sairia por R$ 2,8 milhões.

Vicentino Junior (PL-TO) solicitou R$ 600,2 mil para compra de: duas pás carregadeiras, uma escavadeira e um caminhão leve para tanque de leite.

O Estadão também mostra que Alcolumbre destinou R$ 10 milhões para obras fora do seu estado (Amapá). Dois tratores comprados pelo Senador com dinheiro público vão para o Paraná. A maquinário também foi comprado acima do valor fixado pelo governo (R$ 200 mil), saiu por R$ 500 mil.

MP pede investigação

O subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado solicitou ao Tribunal de Contas da União (TCU) que apure a reserva de R$ 3 bilhões do Orçamento de 2020 para deputados e senadores indicarem recursos para obras e ações Brasil afora com base no “orçamento paralelo” descoberto pelo Estadão.

“A situação requer, a meu ver, a atuação do Tribunal de Contas da União no cumprimento de suas competências constitucionais de controle externo de natureza contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da Administração Pública federal, a fim de que sejam apurados os atos do Poder Executivo que porventura venham — contrariando as regras isonômicas previstas para a aprovação e liberação de emendas parlamentares individuais — favorecendo determinados parlamentares, em retribuição a apoio aos projetos do governo”, argumentou o representando do Ministério Público (MP) junto ao TCU.

Deputados querem CPI

Nesta segunda-feira (10), deputados começaram a planejar a criação da chamada ‘CPI do Tratoraço’ no Congresso para investigar o caso.

Redação Tem com Estadão



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